10 Dicas de Design Instrucional para Tutores

Este post pretende sugerir melhorias no relacionamento existente entre designers instrucionais e tutores que estão trabalhando em cursos à distância no ambiente acadêmico. Mas os DIs que trabalham na área corporativa também poderão se beneficiar da leitura.

Como já vimos em outros posts deste blog, a maioria dos DIs acadêmicos trabalha no planejamento e construção de cursos à distância e pouco se envolve nas atividades de aplicação (entrega) desses cursos. Um corolário disso é que os DIs também pouco se envolvem nas atividades de tutoria em EAD. Isso é uma pena, porque ambos os lados teriam muito a ganhar se colaborassem de maneira mais estreita.

Há um provável complicador, fora do âmbito de atuação do DI, que contribui para esse estado de coisas. Em muitas instituições acadêmicas o tutor é visto como um educador de segunda classe: ganha menos que um professor presencial e tende a trabalhar mais, atendendo a várias turmas. Isso acontece porque há (ou havia até bem pouco tempo atrás) uma crença generalizada de que o papel do tutor de EAD não é ensinar, porque essa tarefa é assumida pelos materiais de EAD preparados pelos autores, designers instrucionais, desenvolvedores Web etc. Caberia então ao tutor servir apenas como dinamizador e orientador dessas turmas, atuando mais como burocrata (um auxiliar administrativo) do que como professor.

Essa crença pode atender aos interesses comerciais dessas instituições, mas, em termos didáticos, é uma bobagem sem tamanho!! É crença típica de quem ainda não aprendeu as diferenças existentes entre os conceitos de “ensino à distância” e “autoinstrução”!!!

E pior: essa visão é típica de quem acredita piamente que os objetivos instrucionais definem o nível máximo de aprendizagem a ser alcançado pelos alunos em uma dada matéria. Daí a se acreditar que tudo o que precisa ser ensinado já está contido nos materiais didáticos é apenas um passo. Mas trata-se de uma simplificação grosseira do processo ensino – aprendizagem. Na verdade, os objetivos instrucionais definem os níveis mínimos de aprendizagem!!! Eles servem, entre outras coisas, para estabelecer o mínimo que um aluno precisa dominar para ser aprovado na matéria. Mas os alunos podem e devem ser estimulados para saber mais, para descobrir mais. E quem vai fazer isso? Ora, o Tutor de EAD.

Podemos, então, ignorar essa crença infeliz e considerar que o tutor é um professor, sim, como qualquer outro dentro da instituição de ensino. E tem a responsabilidade de ensinar, sim.

Mas é realmente necessário que o DI compartilhe táticas de design instrucional com o tutor?

Eu digo que sim, em função de, pelo menos, três motivos:

  • Um tutor inexperiente, ou desinteressado, ou sobrecarregado, ou com poucas habilidades de redação e comunicação, pode estragar uma disciplina de EAD, não importa quão bem tenha sido construída;
  • Os tutores, mesmo os considerados “bons”, costumam ter uma postura basicamente reativa, ou seja, limitam-se a cumprir as orientações previstas no “Manual do Tutor” (ou algo assim) e a executar as tarefas descritas no material didático;
  • Um curso nunca está “pronto”, está sempre “em construção”, e o tutor, a partir de suas experiências com os alunos, tem papel relevante na atualização dos materiais e experiências didáticos, em um constante processo de retroalimentação.

Há muitos modos de o DI fazer isso, é claro, por isso vou sugerir apenas algumas dicas básicas. Mas, antes, é preciso que você considere três cuidados importantes:

  • Assegure-se de que a política da instituição em que trabalha é compatível com a ideia de melhoria e expansão das competências de atuação do tutor (como vimos, para algumas delas, o tutor é apenas um burocrata cumpridor de tarefas);
  • As dicas aqui apresentadas são genéricas, ou seja, a implementação de qualquer uma delas deve levar em conta os objetivos didáticos, o contexto do curso e as orientações do autor;
  • Qualquer mudança proposta pelo tutor nos materiais e/ou nas atividades didáticas deve ser aprovada previamente pelo autor do curso;

10 dicas de design instrucional para o tutor

Com o suporte do DI, o tutor poderia atuar no sentido de:

  1. incentivar os alunos a fazer analogias (e outros tipos de relacionamento) entre as informações veiculadas nos textos didáticos e nos fóruns de discussão. Isso pode facilitar a descoberta de novas relações entre esses elementos;
  2. apresentar novos problemas, casos ou cenários (além daqueles já incluídos no material didático) para os alunos analisarem. Isto pode ser especialmente útil se os materiais do curso estiverem sem atualização há algum tempo. Por exemplo, há mais de três anos;
  3. encorajar os alunos a propor soluções alternativas àquelas apresentadas em exercícios contidos no material didático, se isso estiver de acordo com os objetivos e o contexto do curso;
  4. promover a interação aluno – aluno e alunos – tutor, sempre que possível, a fim de permitir aos alunos que observem fatos, situações e eventos a partir de diferentes pontos de vista. Por exemplo, o tutor pode colocar para discussão no fórum uma dúvida que foi verbalizada por um aluno em uma mensagem de e-mail, em vez de apenas fornecer a resposta para esse aluno;
  5. desencorajar a “mesmice”, ou seja, o pensamento igual por parte dos alunos. Quando, em um fórum de discussão, por exemplo, começar a aparecer mensagens do tipo “Eu concordo” ou “Eu também” ou “Tamo junto” etc, o tutor poderia intervir na discussão e propor outros desafios, ou, então, abordar aquele tema em discussão sob uma outra perspectiva;
  6. incentivar os alunos a sempre justificarem seus pontos de vista, expondo os fatos, teorias ou associações lógicas que os fundamentam;
  7. propor aos alunos, sempre que os objetivos e contexto do curso permitirem, questões que estimulem a reflexão, a análise, o raciocínio lógico. Por exemplo, o tutor poderia apresentar uma questão para a qual não há resposta fácil, e dar um prazo de alguns dias para os alunos responderem, a fim de que tenham tempo para pesquisar e refletir antes de apresentar a resposta;
  8. propor aos alunos a realização de um exercício pessoal que consiste em transferir suas experiências de aprendizagem para situações da vida real, e discutir os resultados desse exercício;
  9. inversamente à dica anterior, propor aos alunos para identificarem exemplos, na vida real, que ilustrem os conceitos e procedimentos aprendidos ao longo do curso;
  10. incentivar os alunos a pesquisarem outros materiais relacionados a um determinado tema (na internet, em livros, jornais ou revistas etc) e a compartilharem com os colegas, fazendo um breve comentário a respeito de cada material selecionado.

Espero que essas dicas sejam um bom ponto de partida para você, DI.

Referência

Algumas das dicas acima foram adaptadas de anotações que fiz a partir da leitura do livro “O Aluno Virtual”, de Rena Pallof e Keith Pratt, Editora Artmed, 2004.

4 Comentários

  1. Ilene Pessoa

    Excelente artigo, Wagner! Concordo plenamente com as suas cosiderações.

    Responder
    1. Wagner G. A. DestroWagner G. A. Destro (Post author)

      Olá, Ilene. Obrigado pelo seu feedback. A sua opinião é muito importante para mim!!

      Responder
  2. Emilio Antonio Leonel Ferreira

    Wagner

    A princípio funções distintas, mas seu artigo mostra que o DI deve evoluir sempre a fim de entregar resultados efetivos em treinamentos.
    Obrigado pela reflexão.

    Responder
    1. Wagner G. A. DestroWagner G. A. Destro (Post author)

      Sim, Emílio, design instrucional e tutoria em EAD são funções distintas, importantes e necessárias. Obrigado pelo seu feedback.

      Responder

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