A universidade na visão de um designer instrucional

“São as universidades que fazem, hoje, com efeito, a vida marchar. Nada as substitui. Nada as dispensa. Nenhuma outra instituição é tão assombrosamente útil.” (Anísio Teixeira)

 

Neste post pretendo apresentar a minha visão, com base em experiências, primeiro como professor, e depois como designer instrucional de cursos acadêmicos a distância, a respeito da função da universidade, especialmente da universidade particular.

Acredito que essa visão possa ser explicada com base nas respostas às seguintes perguntas:

  1. Qual é o papel social da universidade?
  2. Quem são os clientes da universidade?
  3. Quem é responsável pela empregabilidade do aluno?
  4. Como resolver esse problema na prática?

Papel social da universidade. Suponho que haja consenso entre os educadores de que a universidade seja um instrumento de transformação social, com base nos pilares do ensino, pesquisa e extensão. Em teoria, concordo. Mas, e na prática? Bem, em comparação com outros países (e nem precisam ser os desenvolvidos), a mão de obra brasileira tem baixíssima qualificação profissional, com sérias implicações para o nosso crescimento econômico. Na minha visão, a universidade deveria ser um instrumento de formação e desenvolvimento de profissionais qualificados. Se você me perguntar: o papel da universidade é apenas preparar profissionais para o mercado de trabalho? Eu respondo: não! É também formar cidadãos conscientes de suas responsabilidades políticas e sociais. Mas a universidade, mesmo que esteja formando cidadãos conscientes, não está, de acordo com várias pesquisas, formando profissionais com a qualificação necessária exigida pela atual sociedade do conhecimento.

Clientes da universidade. A visão tradicional – ainda predominante – considera apenas o aluno como cliente da universidade. Toda a estrutura é montada para atender a esse cliente que, afinal, é a sua razão de existir. Mas, pergunto: faz sentido formar 20, 50 ou 100 profissionais de um determinado ramo por ano, se não houver mercado de trabalho para eles? Por outro lado, algumas grandes organizações parecem insatisfeitas com o trabalho da universidade tradicional e estão criando as suas próprias (chamadas “universidades corporativas”). Parece que temos, aqui, um evidente descompasso.

Na minha visão, se a universidade é um instrumento de formação profissional, então ela deve ter pelo menos dois clientes: (1) o aluno que frequenta seus cursos, e (2) o mercado de trabalho que absorve a mão de obra formada. Assim, ela deveria ser estruturada para atender às expectativas e necessidades tanto dos alunos quanto dessa entidade chamada “mercado”.

Empregabilidade do aluno. A visão tradicional considera o aluno como sendo o único responsável por sua empregabilidade, durante e depois de sua formação. A universidade se limita a garantir que o aluno faça os estágios obrigatórios por lei e a afixar ofertas de estágios nos Quadros de Avisos dos corredores.

Na minha visão, a universidade deve ser corresponsável pela empregabilidade de seus alunos, tanto ao longo do curso quanto ao seu final. Ela deveria assumir a responsabilidade, junto com o aluno, de formar e entregar ao mercado profissionais com as competências e habilidades que esse mercado espera. Segundo a Ornellas & Associados, “Empregabilidade é o conjunto de competências e habilidades necessárias para manter sua colocação dentro ou fora de sua empresa.” (Veja em: http://www.ornellas.com.br/a-era-da-empregabilidade/ )

Como resolver, na prática. Para resolver essa questão, acredito que devam ser adotadas pelo menos duas iniciativas básicas:

  1. Designar professores para ser mentores de alunos. Além da função tradicional de “dar aulas”, os professores receberiam a missão de orientar pequenos grupos de alunos, quanto ao seu desempenho acadêmico e sua empregabilidade, por todo o tempo de formação na universidade.
  • Criar um Serviço de Relacionamento com o Mercado (SRM). A universidade deveria criar formalmente, em sua estrutura, um órgão voltado ao relacionamento com o mercado. Não precisa ser algo grandioso ou dispendioso. Bastariam dois ou três profissionais experientes e um pequeno grupo de estagiários. Boa parte do trabalho consistirá em manter contatos com empresas e em alimentar e manter atualizado um grande banco de dados com as informações de empregabilidade de todos os alunos. Um setor desse tipo pode ser organizado por departamento (ciências exatas, humanas, sociais, biológicas etc.) com a missão de facilitar, para o aluno, desde a realização de estágios durante a formação até a obtenção do primeiro emprego ou trabalho em sua área de atuação.

SRM – Perguntas e Respostas

  • O que faz, na prática, um SRM de universidade?

Esse órgão centraliza todos os pedidos de estágios e de trainees, de ofertas de emprego e de oportunidades de trabalho que chegam à universidade. Faz a seleção dos candidatos a cada vaga, junto com os mentores, e os encaminha às empresas solicitantes. Duas coisas, então, podem acontecer:

  1. O aluno não é selecionado para a vaga: neste caso, o SRM solicita à empresa que explicite os motivos. As eventuais deficiências de conhecimentos ou habilidades são informadas aos mentores e chefes de departamentos ou coordenadores de cursos. Se as deficiências apontadas não forem um caso isolado, então a universidade deveria fazer alguma coisa para melhorar a empregabilidade de seus alunos.
  2. O aluno é selecionado para a vaga: neste caso, o aluno e a empresa preenchem formulários de avaliação do estágio a cada período de tempo (três ou seis meses). Há tarefas que o aluno não está conseguindo desempenhar adequadamente? Há tarefas que não lhe foram passadas porque não sabe executá-las? Em quais áreas o aluno está sobressaindo? O feedback da empresa será encaminhado aos professores, e o feedback do aluno, depois de analisado pelo mentor, será informado à empresa contratante.

Com isso, cria-se um círculo virtuoso e contínuo de retroalimentação constante: a empresa informa à universidade as habilidades e competências que os alunos precisam manter e/ou desenvolver, e a universidade informa à empresa as práticas que, em sua visão, poderiam ser melhoradas.

  • Qual o diferencial de um SRM?

No modelo tradicional, o aluno procura um estágio remunerado consultando a internet, jornal ou quadros de avisos da universidade. Esta nem sequer fica sabendo se o aluno conseguiu o estágio ou não, se foi bem sucedido ou não. Na minha visão, a universidade é que deve se relacionar diretamente com as empresas. Ela se torna corresponsável pelo desempenho profissional de seus alunos, selecionando aqueles que serão encaminhados a cada seleção e acompanhando todo o processo. Daí ser importante haver um bom sistema de banco de dados. Por exemplo, uma determinada empresa pode pedir que o candidato tenha conhecimentos básicos de alemão, outra pode solicitar conhecimentos avançados de Excel etc. Fica fácil e rápido descobrir, no banco, os alunos que se encaixam em diferentes perfis.

  • O objetivo do SRM é conseguir empregos com carteira assinada?

Não necessariamente. Estamos falando de empregabilidade, de trabalho, e não de emprego. Os alunos podem ser estimulados a empreender desde os primeiros anos da formação. Parcerias podem ser estabelecidas com o Sebrae e serviços similares. O objetivo é que o aluno atue profissionalmente na carreira escolhida desde os primeiros anos de formação.

  • O SRM apenas espera que as empresas encaminhem os pedidos de estágio e de trainee?

Claro que não. O SRM deve, de maneira proativa e constante, estabelecer contatos com as empresas e outras instituições visando a conseguir oportunidades de emprego e trabalho para os alunos.

  • O aluno é obrigado a participar desse processo?

Também não. Espera-se que ele tenha interesse em participar. Afinal, é o futuro dele que está em jogo. Mas um aluno que não demonstra interesse pela própria empregabilidade também não merece que a universidade dedique todos os seus esforços para que ele obtenha sucesso profissional.

  • Um SRM pode gerar receita para a universidade?

Claro que sim. Primeiro, porque a universidade poderá cobrar uma anuidade condizente com o serviço que está sendo prestado, e certamente haverá demanda, porque os candidatos a uma vaga na universidade vão perceber a importância crucial desse diferencial. Segundo, o SRM poderá oferecer disciplinas optativas sobre temas como empregabilidade, elaboração de currículo, empreendedorismo, plano de negócios etc., principalmente se dispuser de um designer instrucional na equipe.

  • O SRM deve se limitar a procurar vagas de primeiro emprego ou primeiro trabalho apenas na cidade-sede da universidade e cidades vizinhas?

De jeito nenhum. O SRM deve ser agressivo na busca de empregos ou trabalho para os alunos recém-formados. A busca deve ser feita em qualquer estado ou cidade onde houver oportunidades. Aliás, na atual sociedade globalizada, o limite não deve ser o Brasil, mas o mundo. O que impede um aluno recém-formado, mas com boa formação, de trabalhar em outro estado da federação ou mesmo em outro país?

  • Como o SRM atua para atender aos alunos de graduações à distância?

Do mesmo modo que os demais setores da universidade atuam, ou seja, utilizando os serviços do polo de apoio local. Por exemplo, se uma universidade sediada em São Paulo abrir 100 vagas para um curso à distância no Acre e Rondônia, ela precisará dar garantias de que haverá vagas de estágio para todos os alunos matriculados e oportunidades reais de obtenção do primeiro emprego ou trabalho. Os polos de apoio local se tornam, então, parceiros importantíssimos para a consolidação dessa estratégia, inclusive com a ampliação de seu escopo que, geralmente, é apenas o de dar apoio aos processos de ensino – aprendizagem.

  • A nota obtida pela universidade na avaliação efetuada pelo MEC já não é um bom indicador de resultado?

Sim, é um indicador de resultado, mas eu diria que não é o resultado mais importante, porque está fundamentado na visão tradicional de que apenas o aluno é cliente da universidade. Pergunto: de que adiantará uma universidade ter vários cursos com Nota 5 (a nota máxima do MEC) se boa parte dos alunos desses cursos não conseguir colocação profissional em sua área de formação? Outra pergunta: além da nota do MEC, qual seria a nota que o mercado de trabalho daria a esses cursos?

  • O que fazer com os alunos que não conseguem nem estágios nem primeiro emprego em sua área de formação?

É uma boa pergunta. Para responder, é preciso lembrar que a empregabilidade é responsabilidade tanto do aluno quanto da universidade. É preciso haver uma conversa franca entre as partes. Há alunos que chegam com tantas deficiências de conhecimento à universidade, que esta não pode fazer milagres. Por outro lado, se o aluno perceber que o mercado está demandando competências que a sua universidade não está conseguindo suprir, então será melhor trocar de curso ou de universidade.

Conclusão: fazendo uma analogia com um post anterior sobre DI e Marketing, eu diria que muitas universidades tratam os seus cursos como “commodities”, ou seja, elas acreditam que os cursos sejam mais ou menos iguais em todas as universidades. Assim, o grande diferencial é o preço das mensalidades. Tenta-se ganhar mais alunos cobrando mensalidades menores que a concorrência e, se a nota do MEC puder ajudar, tanto melhor. Acredito que esse modelo precisa ser superado. Este post é a minha contribuição.

 

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