Designer instrucional: ser ou não ser?

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Ao longo dos meus anos de atuação nas áreas de educação corporativa e educação acadêmica, os cargos ou funções por mim ocupados receberam diferentes denominações, tais como: técnico de treinamento, analista de treinamento, gerente de treinamento, consultor de treinamento e, por fim, designer instrucional, que é o rótulo que adoto atualmente.

Em todos esses anos, tive conhecimento, em vários momentos, de propostas ou tentativas de mudança dos nomes dessas funções ou ocupações, visando a um melhor posicionamento do profissional no mercado de trabalho. Eu mesmo, desde o advento da internet e o consequente crescimento da EAD, venho propugnando a adoção do termo “designer instrucional”, em vez de “analista ou técnico de EAD”

Assim, foi sem qualquer surpresa que tomei conhecimento da proposta de mudança do nome da profissão de Designer Instrucional, feita por Elliot Masie, um guru americano da área da educação, na newsletterLearning Trends”, nº 936, de 29/09/16.

Em resumo, Masie propõe que se pare de usar o rótulo “designer instrucional” como nome de nossa profissão. Em seu lugar, ele sugere o termo “produtor didático” (minha tradução livre para “learning producer”). Quais são os seus argumentos?

Masie acha que o termo “design instrucional” abrange um conjunto de competências das quais todos nós devemos nos orgulhar, mas não deveríamos fazer dele o nome de nossa profissão. Por quê? Ele diz que o rótulo “design instrucional” está muito associado à ideia de escola, de cursos, e que, por isso, os designers instrucionais:

  • raramente são promovidos para outras funções, tanto na própria área de treinamento quanto para outras unidades da empresa;
  • recebem salários menores;
  • têm planos de carreira mais restritos;
  • raramente são considerados como tendo boas habilidades para os negócios (business skills);

Como o Elliot Masie também é um produtor de musicais na Broadway, ele acredita que o termo “produtor” apresenta um leque mais amplo de opções e propicia uma alavancagem mais forte do plano de carreira.

Ele diz que um “produtor didático” também poderia ter habilidades de design, mas estaria numa posição mais favorável para obter recursos e fazer parcerias na área de design, tanto interna quanto externamente à empresa. Ele também acha que um profissional com o título “produtor didático” estaria mais focado nos resultados do negócio (“business outcomes”), na Experiência do Usuário e na combinação de opções disponíveis no ambiente de aprendizagem tanto para os alunos quanto para os gestores.

Acredito que esse não seja um assunto que interesse apenas aos profissionais que atuam nos EUA, assim, gostaria de fazer alguns comentários, expressar algumas dúvidas e dar a minha opinião pessoal.

O texto do Masie dá a entender que ele está se referindo apenas aos DIs que trabalham em empresas (ambiente corporativo), mas acho que a discussão desse tema é importante também para quem atua em escolas e universidades (ambiente acadêmico).

Nós, brasileiros, devemos considerar que a profissão de designer instrucional existe há mais de 50 anos nos EUA. No Brasil, há cerca de 10 anos, se tanto. Eles têm muito mais experiência adquirida, a respeito das implicações práticas da profissão, do que a gente. Seria o caso de começarmos a discutir, aqui entre nós, o futuro de nossa profissão?

Acho que os problemas apontados pelo Masie, quanto à visão que o mercado americano tem do profissional de DI, estão presentes também em nosso mercado de trabalho: dificuldades de promoção, salário menor, plano de carreira limitado e falta de habilidade para os negócios. Mas será que a mudança do nome da profissão seria a melhor solução? Ou mesmo deveria fazer parte dos esforços de solução?

Tanto no Brasil quanto nos EUA, o mercado tem atribuído nomes diferentes para os cargos ocupados por profissionais como a gente. Basta dar uma olhada nas ofertas de emprego disponíveis na internet, tanto aqui como lá. Algumas empresas são bem criativas no momento de atribuir um nome ao cargo a ser preenchido. Será que um novo rótulo vai fazer alguma diferença?

Eu concordo que os problemas apontados pelo Masie, relativos à profissão de designer instrucional, são sérios para nós, brasileiros, também. Precisam ser tratados com prioridade desde já, desde hoje, sob pena de perdermos os melhores profissionais de DI para outras áreas da organização nas quais encontrarão melhores condições de remuneração, posicionamento e crescimento profissional.

Até porque esses problemas não são novos, não surgiram com a profissão de designer instrucional, mas têm sido percebidos, com maior ou menor intensidade, desde que as empresas começaram a montar seus departamentos ou setores de Treinamento & Desenvolvimento. E, até onde sei, ainda não foram satisfatoriamente solucionados.

Além disso, é preciso lembrar que, em virtude dos recentes avanços tecnológicos, o DI não é a única profissão nova no mercado. Profissionais de setores associados ao design instrucional, tais como web designers, programadores web, desenvolvedores de apps etc., também têm problemas em função de suas ocupações serem muito recentes e precisarão lutar pelo seu futuro.

Enfim, eu concordo com o diagnóstico elaborado pelo Masie, mas não concordo com sua proposta de solução. Não acho que a mudança de nomenclatura da profissão, por si só, vá causar qualquer impacto positivo e duradouro, mesmo porque o novo título sugerido – learning producer – mantém o viés acadêmico ao utilizar a expressão “learning”.

Eu vou tentar apresentar algumas sugestões de futuro para a profissão de DI em outro post neste Blog. Convido você a participar desta discussão, ok?

 

2 Comentários

  1. Eliznadro

    Bacana.

    Acho válido a tentativa de solucionar esses problemas na mudança de nome, mas acredito que terá mais efeito aos olhos de quem não entende da área. Alguns colegas de outros cargos poderão ter mais “respeito” com o profissional. É que para alguns, a palavra Designer lembra o “guri do photoshop” e assim vai.

    Com outro nome, imagina que poderemos ter uma “Diretoria de Produção Didática” Oh! Lindo nome.

    Sei que na nossa prática, pouco muda…mas infelizmente, no mundo corporativo as vezes é necessário “enfeitar”, por mais que eu discorde disso pois quem enfeita demais é porque não produz de verdade.

    Seu texto foi ótimo como sempre. Obrigado.

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    1. Wagner G. A. DestroWagner G. A. Destro (Post author)

      Olá, Elizandro. Seu comentário também foi ótimo. Suas observações são pertinentes e concordo com elas. Obrigado por compartilhar.

      Responder

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