Em busca da relevância no ensino

Neste post continuo a tratar da questão da relevância do ensino, um assunto que deveria estar sempre na pauta de discussão dos designers instrucionais.

Vou dar a palavra aos professores Postman e Weingartner, dos EUA, publicando, abaixo, um pequeno trecho de seu livro “Contestação – Nova Fórmula de Ensino”. A primeira parte refere-se ao script de uma pequena peça teatral, na qual eu fiz algumas adaptações, e a segunda parte abrange os comentários feitos pelos autores a respeito dessa peça (sem edição de minha parte).

Segue a referência completa:

Postman N. & Weingartner S. Contestação – Nova Fórmula de Ensino. Editora Expressão e Cultura: Rio de Janeiro, 1974.

Você pode acreditar: apesar do ano de publicação, o conteúdo do livro ainda é muuuiiiito atual. E o título do livro, no original em inglês, é muito mais interessante que o da tradução em português. Não vou dizer qual é esse título. Vale a pena tentar descobrir.

Com a palavra, os autores.

Pequena peça teatral

Cenário: Sala de Reunião do Hospital Universitário. O Dr. Almeida, Chefe do Serviço de Clínica Cirúrgica, está reunido com alguns dos médicos cirurgiões que fazem Residência no hospital. Estão iniciando uma sessão de análise das operações realizadas na semana anterior. O Dr. Almeida aponta na direção do Dr. Fontes, indicando que os seus casos serão discutidos em primeiro lugar.

ALMEIDA: – E, então, Dr. Fontes, como foi a sua semana?

FONTES: – Fiz apenas uma intervenção. Extraí a vesícula biliar do paciente do Quarto 42.

ALMEIDA: – Qual era do problema dele?

FONTES: (estranhando) – Problema? Acho que nenhum. Na minha opinião, é sempre bom remover vesículas.

ALMEIDA: – Sempre bom?

FONTES: – Quero dizer que é uma coisa boa em si mesma. A extração da vesícula desse paciente teve um mérito intrínseco evidente. Como nós médicos costumamos dizer, foi uma coisa boa em si mesma.

ALMEIDA: – Muito bom, Dr. Fontes, muito bom. Se há uma coisa que eu não tolero neste hospital é um cirurgião simplesmente prático. (Pausa) – E o que tem programado para a próxima semana?

FONTES: – Duas lobotomias frontais.

ALMEIDA: – Lobotomias frontais enquanto lobotomias frontais espero…

FONTES: (sorrindo) – Claro, chefe, o que mais poderia ser?

ALMEIDA: – Muito bem, Dr. Fontes, você ainda será um grande médico. (Pausa) E você, Dr. Sampaio, o que fez nesta semana?

SAMPAIO:– Estive bastante ocupado. Fiz quatro excisões de quistos pilonidais.

ALMEIDA: – Não sabia que tínhamos tantos casos.

SAMPAIO: – Não temos, não. O senhor sabe como eu sou “vidrado” em quistos pilonidais. Foi o meu forte na faculdade, não se lembra?

ALMEIDA: – Ah, sim, é claro. Se bem me recordo, foi a perspectiva de realizar excisões de quistos pilonidais que o atraiu para a área de cirurgia, não foi?

SAMPAIO: – Exatamente, chefe. Sempre me interessei muito por esse tipo de cirurgia. (Pausa) – Francamente, nunca me senti atraído por apendicectomia…

ALMEIDA: Apendicectomia?

SAMPAIO: Bom, parece que esse era o problema do paciente do Quarto 97…

ALMEIDA: – Mas você se manteve firme na decisão de realizar a excisão do quisto pilonidal, certo?

SAMPAIO: – Certo, chefe.

ALMEIDA: – Bom trabalho, Dr. Sampaio. Sei muito bem como você se sente. Quando eu tinha a sua idade, sentia uma profunda atração por vasectomia. Realizei centenas delas no começo da minha carreira. (Pausa) E você, Dr. Garcia, como vão as coisas?

GARCIA: – Acho que tive uma semana azarada, Dr. Almeida. Não fiz nenhuma operação… e três dos meus pacientes morreram.

ALMEIDA: – Isso é muito mal. Vamos ter de fazer alguma coisa a respeito. Afinal, você não pode ficar uma semana inteira sem operar. Teremos que dar um jeito nisso, certo? Bom, mas do que foi que eles morreram?

GARCIA: – Não tenho certeza, Dr. Almeida. Mas dei a cada um deles doses maciças de penicilina.

ALMEIDA: – Ah, o tradicional critério “bom porque é bom”, não é Dr. Garcia?

GARCIA: – Não foi bem isso, chefe. Apenas pensei que a penicilina poderia ajudá-los a melhorar.

ALMEIDA: – De que você os estava tratando?

GARCIA: – Bem, os três estavam muito doentes, e sei que a penicilina ajuda as pessoas a melhorar.

ALMEIDA: É claro que sim, Dr. Garcia, é claro que sim. Acho que você agiu de maneira bastante sensata.

GARCIA: – Mas, e as mortes, chefe?

ALMEIDA: – Maus pacientes, meu filho, maus pacientes. Um médico nada pode fazer contra os maus pacientes. E um bom remédio também não.

GARCIA: – Mas ainda assim tenho o desagradável pressentimento de que talvez eles não precisassem de penicilina. Talvez necessitassem de alguma outra coisa…

ALMEIDA: – Ora, isso é ridículo. A penicilina nunca falha nos bons pacientes. Todos os médicos sabem disso. No seu lugar, eu não ficaria tão preocupado. (Pausa) – Senhores, a reunião está encerrada.

 

Comentários dos autores

Talvez a nossa pequena peça de teatro não precise de explicações, mas gostaríamos de sublinhar alguns pontos.

Primeiro, se tivéssemos continuado a conversa entre o Dr. Almeida e os seus jovens cirurgiões residentes, poderíamos facilmente ter incluído meia dúzia de outras “razões” para aplicar às crianças os tipos de currículos irrelevantes que dominam a maior parte da escolaridade convencional.

Por exemplo, poderíamos incluir um médico que ainda praticava a “sangria” nos seus pacientes por não ter descoberto que tal prática não faz bem algum. Outro médico poderia insistir que “curou” os seus pacientes, apesar de eles todos terem morrido. (“Ah, eu lhes ensinei isso, mas eles não aprenderam.”) Ainda outro médico poderia defender uma determinada prática argumentando que, embora a sua operação não tivesse trazido grande melhoria para o paciente, mais tarde, ele talvez viesse a necessitar exatamente dela e, se assim fosse, voilá, ela já estava feita.

O segundo ponto que gostaríamos de sublinhar é que não “inventamos” essas “razões”. Nossa peçazinha é uma paródia somente no sentido de que semelhante conversa é inconcebível entre médicos. Se, em vez de médicos, usássemos um diretor de escola (ou um chefe de departamento) e seus professores, e se eles discutissem o que tinham “ensinado” durante a semana, então a nossa pequena peça seria um documentário gravado ao vivo, e não seria dos mais implacáveis.

Há milhares de professores que acreditam na existência de certas matérias que são “inerentemente boas”, que são “boas porque são”. Se nós lhes perguntássemos: “Boas para quem?” ou “Boas para que fim?”, seríamos rejeitados como pessoas “meramente práticas”, e eles iriam nos explicar que estão falando sobre literatura como literatura, de gramática como gramática e de matemática per se. A tais professores dá-se correntemente o nome de “humanistas”.

Há milhares de professores que ensinam matérias tais como “Literatura Inglesa”, ou “Revolução Industrial”, ou “Geometria Analítica”, porque eles sentem uma inclinação para esses assuntos e gostam de falar sobre isso. De fato, foi o que os levou a serem professores. É também o motivo pelo qual seus alunos não conseguem ser aprendizes competentes. Há milhares de professores que definem um “mau estudante” como sendo qualquer estudante que não reage como supostamente devia ao que lhe foi receitado.

E ainda muitos mais são os professores que ensinam uma coisa ou outra na suposição de que a matéria fará algo de bom pelos seus estudantes quando, de fato, não faz e nunca fez e, na verdade, como a grande maioria das provas indica, tem um efeito justamente oposto. E assim por diante.

O terceiro ponto que gostaríamos de assinalar a respeito da nossa analogia é que o “problema” com todas essas “razões” consiste, simplesmente, em que o aprendiz (paciente) é deixado de fora, o que, realmente, é outra maneira de dizer que tais razões estão fora de realidade.

Com pleno conhecimento das limitações da nossa metáfora paciente-aprendiz, diríamos ser rematada loucura (literal ou metaforicamente, cabe a você, leitor, a escolha) realizar uma excisão do quisto pilonidal, a menos que o paciente dela necessite para conservar a sua saúde e bem-estar; e também é loucura (deixamos de novo à sua escolha o advérbio de modo) que um professor “ensine” alguma coisa, a menos que os seus alunos dela necessitem para alguma finalidade importante e identificável, isto é, para alguma finalidade relacionada com a sua vida.

A sobrevivência das aptidões e do interesse do aprendiz em aprender está em jogo. E sentimos que, ao dizer isto, não estamos sendo melodramáticos.

 

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