Enfrentamento de ameaças – Papel do DI

Se eu ainda soubesse como mudar o mundo,
se eu ainda pudesse saber um pouco de tudo,
eu voltaria atrás no tempo.
(Nosso mundo – Barão Vermelho)

 

A maioria dos designers instrucionais que eu conheço gosta de discutir e prefere trabalhar em atividades tais como gamificação, interação, simulações, vídeos etc. Não há nada de errado nessas preferências, é claro, desde que se tenha consciência de que se trata de atividades-meio desenvolvidas para o alcance de determinados fins.

Mas quais são os fins da educação corporativa e da educação acadêmica?

Bem, uma coisa que eu aprendi cedo na profissão é que lidar com atividades-meio é muito mais gratificante. Basta ver a quantidade de artigos e posts, em design instrucional, tratando de temas “interessantes” como gamificação, atividades interativas etc. Eu mesmo dou muita atenção a esses assuntos em meus posts.

Mas, em algum momento, devemos nos voltar para as atividades-fim que justificam a existência de nossa profissão.

Considere, por exemplo, a seguinte afirmação: “Nosso mundo é cheio de ameaças. Mas também é pleno de possibilidades e oportunidades!” Tanto as ameaças quanto as oportunidades podem coexistir em um mesmo ambiente, mas sabe o que vai determinar a prevalência de uma delas?

A existência ou não de planejamento.

Se houve um trabalho prévio de identificação de uma provável ameaça e a preparação de pessoas para o seu enfrentamento, então essa ameaça será minimizada ou superada, resultando em uma bela oportunidade de crescimento para todos os envolvidos. Caso contrário, sem esse trabalho prévio, a oportunidade será perdida, e a ameaça, caso concretizada, trará consequências ruins, ou mesmo catastróficas.

E isso tem tudo a ver com o trabalho do DI, tanto no ambiente corporativo quanto no acadêmico.

Mas o que é uma “ameaça”?

Em seu nível mais básico, “a ameaça é entendida como um anúncio de que algo ruim ou perigoso pode acontecer”. (QueConceito)

Há situações em que a atuação do DI pode ser necessária para o enfrentamento de amaças?

Sim, há muitas ameaças bastante sérias cujo enfrentamento pode ser facilitado pela atuação competente de designers instrucionais. Neste post, vou dar destaque a três delas, por estarem cada vez mais presentes no mundo atual, a saber: os ataques cibernéticos, os ataques terroristas e os desastres naturais.

Ataques cibernéticos

São os ataques que acontecem no mundo digital, principalmente na internet, envolvendo a infestação de sistemas por vírus, o roubo de senhas, roubo de dinheiro etc. Vejamos dois exemplos:

1)      O hospital em que você trabalha sofre um ataque de hackers. Todos os computadores da rede interna foram infectados, todos os dados foram sequestrados e os invasores estão pedindo um resgate em dinheiro para que sejam devolvidos. Foi um ataque, em escala mundial, por um vírus chamado “WannaCry”. Você vê a situação no hospital rapidamente se transformar em um inferno, com cirurgias sendo desmarcadas, exames cancelados, prontuários perdidos, e todo mundo desorientado, sem saber o que fazer, inclusive você.

2)      O banco comercial em que você trabalha sofre um ataque digital e os dados de milhares de cartões de crédito dos clientes, incluindo as senhas, são roubados pelos invasores. Você acompanha o ritmo frenético do departamento de TI e demais áreas do banco para circunscrever e resolver o problema a fim de evitar prejuízos para os clientes e para o próprio banco.

Você, DI, diria que esses tipos de ataque não são seu problema? Que é problema do departamento de TI?

Bem, parece haver consenso entre os especialistas em tecnologia da informação que as ações de segurança digital desenvolvidas pelos departamentos de TI garantem cerca de 90 a 95% da segurança necessária. Os outros 5 a 10% envolvem condições relacionadas ao comportamento humano, portanto, influenciáveis por ações de treinamento e desenvolvimento, dentre outros fatores, e é aqui que entra o designer instrucional.

Devemos considerar que a segurança digital não é – nem nunca foi – um problema apenas do departamento de TI, mas de toda a organização. Os criminosos cibernéticos estão tentando, cada vez mais, burlar os esquemas de segurança montados pelas áreas de TI agindo diretamente sobre os empregados. As estratégias mais utilizadas e de maior interesse para o DI são o “ransomware”, o “phishing” e, de maneira mais geral, aquilo que se convencionou chamar de “engenharia social”.

Segundo a Wikipédia, “ransomware” é um tipo de “malware” que impede o acesso ao sistema que foi infectado e os invasores cobram um resgate em dinheiro para que o acesso possa ser restabelecido. Caso o resgate não seja pago, arquivos podem ser perdidos para sempre. Mas, mesmo pagando, não há garantia nenhuma de que os arquivos sejam devolvidos. O vírus “WannaCry”, citado no exemplo 1, acima, é um exemplo de “ransomware”.

O termo “phishing” é uma corruptela da palavra “fishing” (“pescaria”, em inglês), e faz referência à forma como o golpe é aplicado: o hacker lança uma isca para atrair o usuário e levá-lo a clicar em um link que fará com que sua máquina seja infectada com conteúdo malicioso. Parece que essa foi a técnica usada no ataque descrito no exemplo 2, que resultou no roubo de milhares de dados de cartões de crédito.

A expressão “”engenharia social” tem várias conotações em diferentes contextos. Segundo a Wikipédia, no contexto da segurança da informação, esse termo se refere à manipulação psicológica de pessoas para a execução de ações ou divulgação de informações confidenciais. Esse termo descreve um tipo de invasão que depende fortemente de interação humana e envolve enganar outras pessoas para quebrar procedimentos de segurança. (Dica: Para saber mais sobre essas técnicas, recomendo a leitura do post “Cuidado com a engenharia social”, publicado no site “Tecmundo”)

Como podemos ver, os 5 a 10% de segurança digital, que os departamentos de TI não conseguem cobrir, constituem um espaço e uma gama de oportunidades enormes para o designer instrucional. Mas precisamos estar focados e preparados. Assim, quando for revisar as prioridades de T&D da sua empresa para este e/ou para os próximos anos, recomendo que você pergunte a si mesmo:

O que estamos fazendo para:

  1. capacitar o pessoal de TI a desenvolver ações que evitem ou minimizem a ocorrência de ataques cibernéticos?
  2. capacitar todos os empregados que lidam com computadores para reconhecer e se prevenir de ameaças cibernéticas?
  3. capacitar o pessoal de TI e todos os empregados que lidam com computadores para enfrentar ataques cibernéticos?

Ataques terroristas

Você pode estar se perguntando: eu, como DI, preciso mesmo me preocupar com ataque terrorista aqui no Brasil?

Eu responderia que sim, e, quanto antes, melhor!

Mas o que é terrorismo?

Segundo a Wikipédia, “terrorismo é o uso de violência, física ou psicológica, através de ataques localizados a elementos ou instalações de um governo ou da população governada, de modo a incutir medo, pânico e, assim, obter efeitos psicológicos que ultrapassem largamente o círculo das vítimas”.

Vejamos alguns exemplos que devem ser do interesse de todo profissional de DI:

1)      A empreiteira em que você trabalha está realizando uma grande obra em determinado país da África. Hoje, você ficou sabendo que três engenheiros e dois auxiliares foram sequestrados por membros de uma guerrilha antigoverno que atua na região da obra, e estão exigindo resgate. Fotos enviadas pelos guerrilheiros mostram que os seus empregados estão bem machucados.

2)      Você trabalha em uma empresa que presta serviços para uma empresa de telefonia móvel. Hoje, quatro trabalhadores de campo foram sequestrados em uma favela por traficantes de drogas que estão exigindo resgate para liberá-los. Um dos trabalhadores liga para a empresa dizendo que todos serão mortos se o dinheiro do resgate não chegar a tempo. Ele está apavorado.

3)      Hoje pela manhã um hotel que pertence à rede na qual você trabalha foi invadido por um grupo de cerca de 10 criminosos que estavam fugindo de uma perseguição policial. Houve intensa troca de tiros e os funcionários da recepção, bem como alguns hóspedes, ficaram apavorados. Ninguém sabia o que fazer. O tiroteio durou alguns minutos e, felizmente, nenhum funcionário ou hóspede foi feito refém ou ficou ferido.

Eu sei que muita gente considera exagerado classificar esses episódios como “atos terroristas”, preferindo que sejam tratados como simples “banditismo”, uma vez que atos de terror seriam praticados apenas contra governos. Mas a definição de terrorismo que estamos adotando é bem mais abrangente, e acho que já está mais do que na hora de tratar esses momentos de horror pelo que realmente são, ou seja, como “terrorismo”. Afinal, basta perguntar a qualquer um dos profissionais envolvidos nesses episódios o que eles sentiram nesse momento. Assim, tanto em respeito aos empregados quanto para manter a saúde de seus negócios, as empresas precisam planejar e executar ações visando à prevenção e, se necessário, ao eventual enfrentamento desse tipo de ameaça ou ataque.

Essa visão é importante porque a alta gerência das empresas tende a se preocupar com esses problemas apenas de maneira pontual: quando precisa enviar funcionários para trabalhar em outros países do terceiro mundo ainda mais inseguros que o Brasil, ou, mesmo em nosso país, quando precisa enviar equipes para trabalhar em áreas inseguras, como as favelas. Geralmente, as demais situações são tratadas como “fatalidades” ou meros “casos de polícia”. Isso abre um campo de oportunidades enorme para o designer instrucional trabalhar na preparação da alta e média gerências, do pessoal da segurança interna (quando existir) e dos demais empregados para a prevenção e eventual enfrentamento dessas ameaças.

Desastres naturais

Segundo a Wikipédia, um desastre natural ocorre quando um evento físico muito perigoso (tal como um terremoto, furacão, inundação ou incêndio) provoca direta ou indiretamente danos extensos à propriedade, faz um grande número de vítimas, ou ambos.

Felizmente, o nosso país está situado numa região geográfica em que são pequenas as chances de ocorrer terremotos de grande magnitude, furacões ou mesmo tornados. Mas há outros eventos naturais recorrentes que podem se transformar em desastres, caso não haja nenhuma preparação por parte das empresas.

Vejamos um exemplo ilustrativo: um forte vendaval derruba as telhas do setor de produção da fábrica de implementos agrícolas em que você trabalha, causando ferimentos em quatorze pessoas e duas mortes. Vendavais são um evento costumeiro nessa região, e o teto do galpão da fábrica resistiu bem nas vezes anteriores. Mas, em seu depoimento à polícia, um dos supervisores diz que ninguém é retirado do local, quando a ventania ainda está se formando, porque a “produção não pode parar”. A direção da empresa soltou uma nota lamentando as mortes e dizendo que aconteceu uma “fatalidade”.

Há duas fortes atitudes relacionadas a esse tipo de evento que precisam ser combatidas: a primeira é a aceitação passiva das “tragédias naturais”. Afinal, “tragédia é tragédia”, “tragédias acontecem” etc. A segunda é que tragédias, justamente por serem tragédias, não podem ser previstas.

É claro que eventos naturais, como a chuva e o vento, não podem ser evitados (ou suavizados), mas podem, sim, ser previstos e enfrentados, geralmente por meio de ações desenvolvidas pela média e alta gerências das empresas. Mas estas, quase sempre, precisam ser preparadas para esse enfrentamento.

Vendavais, chuvas torrenciais, inundações, deslizamentos de terra, seca prolongada, incêndios florestais etc., são eventos naturais muito comuns no Brasil e que podem afetar negativamente tanto o patrimônio e a imagem das empresas, quanto a saúde e o bem-estar de seus empregados, caso não sejam devidamente enfrentados. Isso abre um imenso campo de oportunidades para a atuação do designer instrucional.

Dica para o DI corporativo

Os melhores recursos didáticos para preparar os recursos humanos da sua empresa para o enfrentamento dessas ameaças são os jogos, simulações, vídeos interativos e cenários interativos.

Recomendação para o DI acadêmico

Qual deveria ser a forma de atuação do DI acadêmico na preparação de profissionais para enfrentar essas ameaças?

De minha parte, vou continuar a insistir em uma tecla na qual venho batendo há muito tempo: é preciso incentivar a formação profissional e a empregabilidade em áreas de atuação ligadas à ciência, tecnologia, matemática e engenharia.

Segundo artigo publicado no site eLearning Mind, em 2015, citando um relatório da Accenture, os Estados Unidos formam 234 mil profissionais, por ano, em cursos de graduação relacionados às áreas de atuação acima citadas. Sabe a China? Pois bem, a China forma anualmente dois milhões e oitocentos mil profissionais em cursos de graduação nessas mesmas áreas de atuação. Mesmo considerando as respectivas diferenças populacionais, essa discrepância é brutal.

E o Brasil? Alguém sabe? Bem, apenas para efeito de comparação, vamos nos limitar aos dados da formação de engenheiros. Segundo o Confea (dados de 2014), o Brasil forma cerca de 40 mil engenheiros por ano. A China forma cerca de 650 mil.

Os EUA há muito tempo estão preocupados com a quantidade e qualidade dos profissionais formados nessas áreas de atuação. Um designer instrucional do eLearning Mind afirma nesse mesmo artigo: “University degrees operate on theory-based learning. For the U.S. to compete, graduates need more hands-on practice.”

O caminho é claro também para nós, DIs brasileiros: é preciso tornar os cursos nessas áreas mais atraentes, mais orientados para a aplicação prática e para os problemas do mundo real.

O caminho é claro, mas não é nada fácil. Há um problema cultural a ser superado. Vou dar um exemplo ilustrativo. Há algum tempo atrás li uma entrevista dada por um “especialista” em educação, alguém com mestrado e doutorado na área. Em resumo, ele diz que o MEC precisa aumentar os cursos de graduação na área de humanidades (filosofia, sociologia, história etc.), porque é preciso aumentar a compaixão das pessoas, e isso é coisa que só os cursos de humanidades são capazes de fazer.

Pergunto a você, DI acadêmico: apesar de não serem categorias mutuamente excludentes, o Brasil precisa de mais cientistas, mais engenheiros, mais matemáticos ou de mais profissionais capazes de se compadecer?

Ainda há um longo caminho a ser percorrido.

6 Comentários

  1. Vera Lucia de Souza

    Olá! Obrigada. Aprendi fatosnovis ao ler o artigo.

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    1. Wagner G. A. DestroWagner G. A. Destro (Post author)

      Olá, Vera. Muito obrigado pelo seu feedback.

      Responder
  2. paula carolei

    Bem interessante sua postagem com aspecto de ameaças mesmo, em termos de segurança, mas achei engraçado pois você critica o foco nas atividades e acaba conduzindo o texto não por princípios estratégicos, mas dando uma outra proposta beeeem específica. Acho que essas especificidades trazem riqueza ao DE, mas o aspecto estratégico, em termos pedagogicos vai mais do que ameaças e oportunidades (embora elas façam parte) ou de modismos focados em soluções, mas é preciso uma visão sistêmica considerando os vários atores.

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    1. Wagner G. A. DestroWagner G. A. Destro (Post author)

      Olá, Paula. Obrigado pelo seu comentário.

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  3. Julio Cunha

    Muito interessante seu post Wagner. Achei que iria por outro caminho. Me inspirou a escrever um post também.

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    1. Wagner G. A. DestroWagner G. A. Destro (Post author)

      Olá, Julio. Obrigado pelo seu comentário. Gostaria de ler o seu post a respeito desse tema quando estiver pronto.

      Responder

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