Estilos de aprendizagem: você ainda acredita nisso?

Estilos

Você é um aprendiz visual, auditivo ou cinestésico?

Bem, se você atua em nossa profissão há algum tempo, já deve ter lido algum artigo sobre os “estilos de aprendizagem” ou já deve ter respondido a um questionário ou inventário para descobrir o seu estilo dominante ou, ainda, pelo menos deve ter ouvido algum professor da área da educação comentar a respeito da importância desses estilos.

E, pelo lado prático, já deve ter recebido instruções do seu gerente de e-learning parecidas com estas:

— Estas telas estão com muito texto. É preciso inserir mais imagens e figuras para atender aos estudantes visuais!

— Você precisa incluir narração em áudio nessas telas de texto. Temos que dar atenção aos estudantes auditivos.

Então, qual o problema?

O problema é que não existe essa coisa chamada “estilo de aprendizagem”. Pelo menos não há nenhuma evidência científica que lhe dê suporte. Não há nada, nenhuma pesquisa científica independente que confirme cabalmente a utilidade prática desse conceito.

Entretanto, parece que o conceito de estilos de aprendizagem voltou com força renovada com o avanço dos programas de educação à distância. Isso faz sentido, porque a educação presencial, com sua ênfase quase que exclusiva em aulas expositivas, não dá muita chance para o educador se preocupar com os estilos pelos quais seus alunos aprendem.

Tenho conhecido pessoas que trabalham com produção de e-learning e que acreditam, com sinceridade, nos estilos de aprendizagem. Vamos, então, discutir esse conceito com um pouco mais de detalhe.

De modo geral, os profissionais da educação tendem a tomar decisões com base em crenças, ideologias e consenso de grupo; raramente buscam fundamentação científica independente para as práticas adotadas. Assim, a adoção de uma ou outra prática didática depende muito mais das crenças do autor do que de evidências científicas (daí o título deste post…).

O fato de que as pessoas parecem estudar e aprender de diferentes modos parece tão óbvio, mas tão óbvio, que a ideia de haver diferentes estilos de aprendizagem acaba tendo um forte apelo emocional. Eu mesmo cansei de ouvir a frase: “Mas é óbvio que existem diferentes estilos de aprendizagem!”

Em EAD, os estilos de aprendizagem permitem que as decisões de design didático sejam tomadas de maneira simples, fácil e direta, ou seja, figuras e imagens para o aluno visual, narração em áudio para o aluno auditivo, baterias de exercícios para o aluno cinestésico. É claro que a vida do profissional de DI fica bastante facilitada.

Os custos de se desenvolver materiais didáticos específicos para cada estilo de aprendizagem são altíssimos, e sem qualquer garantia de retorno. Para se ter uma ideia, nos EUA, até há algum tempo atrás, a grande maioria dos programas de e-learning corporativo, tinha obrigatoriamente que oferecer narração em áudio para as telas de texto, a fim de acomodar os estudantes auditivos. As críticas consistentes dos profissionais de design instrucional estão, aos poucos, abolindo essa prática.

Note, agora, que eu estou falando da classificação mais comum e conhecida dos estilos de aprendizagem (alunos visuais, auditivos e cinestésicos); mas, aparentemente, há tantas classificações quantos forem os educadores preocupados com esse tema. Por exemplo, fazendo uma rápida pesquisa, eu descobri as seguintes classificações:

  • Ativo, reflexivo, teórico e pragmático
  • Interativo, analítico, pragmático e dinâmico
  • Nativos digitais e imigrantes digitais

É curioso notar, por fim, que a metodologia dos estilos se aplica apenas ao processo de aprender, porque, no momento de avaliar, as provas são iguais para todo mundo. Se os estilos de aprendizagem fossem assim tão importantes, as provas não deveriam também respeitar o estilo de cada aluno?

Mas o que a ciência tem a nos dizer a respeito de todos esses estilos?

Para responder, vou me basear em um post publicado em 2010 no Blog da Cathy Moore (Learning styles: Worth our time?) Nesse post a autora cita um excelente estudo chamado “Learning Styles: Concepts and Evidence”, preparado por quatro psicólogos cognitivos dos EUA, e publicado no “Psychological Science in the Public Interest”, em 2008. Em suas conclusões, os autores afirmam que (em tradução livre): “O contraste entre a enorme popularidade dos estilos de aprendizagem no campo da educação e a falta de evidências da sua utilidade é, em nossa opinião, impressionante e perturbador. Se a classificação dos estilos de aprendizagem tem alguma utilidade prática, isso ainda precisa ser demonstrado.”

Cathy Moore também sugere a leitura de dois livros (“Make It Stick: The Science of Successful Learning”, de Peter Brown, e “Urban Myths about Learning and Education”, de Pedro de Bruyckere e outros) e que se assista a um “TED Talk” sobre o assunto com a psicóloga Tesia Marshik.

Com base nessas evidências, Cathy Moore afirma que: “Em vez de criarmos versões redundantes de um mesmo material, tais como a narração em áudio nas telas de texto, nós provavelmente conseguiríamos melhores resultados ajudando os alunos a estruturar seu processo de aprendizagem e a verificar o seu progresso nos estudos, além de oferecer feedback contextual e qualquer reforço necessário.”

A fim de ampliar ainda mais essa visão, e adaptando uma frase do livro “Make it Stick”, citada pela Cathy Moore, vou concluir dizendo o seguinte: Quando o método de ensino está coerente com os objetivos didáticos, está adaptado à natureza do conteúdo e considera as principais características dos aprendizes, todos aprendem melhor, independentemente das preferências individuais a respeito de como o material deveria ser ensinado.

 

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