Estudo de caso: 10 tipos para você usar

Estudo de casoVocê tem usado estudos de caso em seus cursos presenciais, cursos à distância ou programas de e-Learning? Quais os tipos de caso que você costuma usar?

Por definição, “estudo de caso” é uma ferramenta pedagógica que apresenta problemas do mundo real para o aluno propor soluções. Idealmente, um caso deve sempre terminar com questões para discussão. Trata-se de um excelente instrumento para juntar a prática à teoria.

O estudo de caso começou a ser utilizado, como estratégia de ensino, na década de 1880, na Universidade Harvard, nos EUA. Desde então, a estrutura dos casos segue mais ou menos um mesmo padrão: histórico ou antecedentes, situação atual, problema ou sequência de problemas e questões para análise.

Por que será que os designers instrucionais tendem a usar sempre o mesmo tipo de estudo de caso?

Uma pesquisa na literatura da área não vai ajudar muito na busca de respostas. O conceito de “tipos de caso”, quando aparece, quase sempre está associado ao estudo de caso como estratégia de pesquisa, principalmente nas ciências sociais. É por isso que alguns autores preferem o termo “estudo de casos para o ensino”, a fim de se contrapor ao estudo de casos como estratégia de pesquisa.

Tive acesso há alguns anos atrás a um “guia de boas práticas” produzido pelo Ministério da Energia dos EUA (US Department of Energy – DOE), intitulado “Guide to Good Practices for Developing and Conducting Case Studies”. Acredito que, até hoje, esse seja o melhor material a abordar os diferentes tipos e finalidades de estudos de caso. A versão que uso atualmente é de 1998 e está disponível na internet.

Uma descrição resumida dos dez principais tipos de estudos de caso é apresentada a seguir, e está baseada nesse guia de boas práticas.

Tipos de estudo de caso

O estudo de caso tem sido considerado um excelente método para envolver o aluno no processo de aprendizagem. Um dos problemas que o designer instrucional  enfrenta é selecionar o tipo certo de estudo de caso, de acordo com os objetivos e conteúdo didáticos, a fim de maximizar a aprendizagem.

Nos EUA, livros e artigos técnicos foram escritos a respeito do “melhor tipo” de estudo de caso. Na verdade, não há um tipo que seja sempre o melhor. A relação dos dez tipos que apresentamos abaixo foi selecionada entre várias fontes que estão disponíveis ao designer instrucional.

  1. Estudo de caso do tipo clássico (Background)

O principal propósito do estudo de caso clássico é compartilhar informações, fornecer dados fatuais ou familiarizar o aluno com as circunstâncias menos evidentes de uma situação específica. Ele pode ser utilizado como um motivador inicial para a aprendizagem de um dado conteúdo ou, então, ser usado ao longo de uma unidade para ilustrar determinado ponto. O caso deve apresentar uma situação específica, ou um conjunto de situações, desde que baseadas no mesmo tema. Apresenta-se uma breve descrição da situação, com informações contextuais e, ao final, faz-se perguntas ao aluno. Depois de efetuar a sua análise, o aluno pode receber algum material de reforço contendo, por exemplo, os fatos expostos no caso, as ações que foram tomadas, as perguntas feitas e as lições aprendidas.

A vantagem de se utilizar esse tipo de estudo de caso, em vez de se usar leituras de texto ou aulas expositivas, é que o aluno absorve os dados bem mais facilmente, uma vez que os mesmos estão relacionados a uma situação real, que ele pode reconhecer. O aluno aprende por si mesmo, pensando e tomando decisões, sem a interferência direta do professor ou tutor.

Há também uma vantagem especial para os alunos mais velhos, que precisam adquirir novos conhecimentos, mas podem não estar preparados para admitir sua ignorância, caso o ensino seja desenvolvido da maneira tradicional (aulas expositivas, por exemplo).

 

2) Estudo de caso do tipo ao vivo (Live)

O estudo de caso “ao vivo” é um dos tipos mais interessantes atualmente utilizados. O material para a preparação desse tipo de caso provém de fatos que estão ocorrendo exatamente nesse momento. Na maior parte das vezes, o aluno recebe apenas um artigo de jornal ou revista, ou um link para um texto na internet, ou excertos de um relatório empresarial, como sendo toda a informação disponível para estudo. O professor prepara questões para estimular a reflexão e iniciar o debate. As respostas são totalmente desconhecidas no momento em que o caso é apresentado. Somente depois de alguns dias, ou meses, as conclusões dos alunos poderão ser comparadas com as decisões realmente tomadas. Geralmente, essa comparação é feita por meio da leitura de novos artigos publicados ou de novos relatórios empresariais.

Naturalmente, o estudo de caso ao vivo deve ser utilizado apenas em cursos ou treinamentos de longa duração.

 

3) Estudo de caso do tipo incidente crítico (Critical incident)

Neste tipo de caso, o aluno recebe uma pequena quantidade de informações a respeito de uma dada situação. Dados adicionais vão sendo fornecidos de acordo com as solicitações do aluno. Nem todas as informações solicitadas serão consideradas relevantes para a análise e solução do caso, e o aluno poderá receber um feedback do tipo “Informação não relevante para a análise do caso”. Depois que o aluno considerar ter recebido todas as informações relevantes, ele poderá preparar a sua análise do caso e fazer sugestões de ações a serem tomadas, por exemplo.

O caso do tipo “incidente crítico” permite desenvolver a habilidade de “fazer as perguntas certas” e, portanto, é bastante útil em situações de aprendizagem que envolvam diagnóstico e solução de problemas. Também pode ajudar a desenvolver as habilidades necessárias para se lidar eficazmente com situações incomuns ou de emergência.

 

4) Estudo de caso do tipo tomada de decisão (Decision)

Este tipo pode ser usado como uma atividade de aprendizagem ou como uma atividade de avaliação para verificar se o aluno alcançou o objetivo de ensino.

O caso do tipo “tomada de decisão” requer que o aluno faça mais do que simplesmente obter e manipular dados, ou analisar uma dada situação. O aluno deverá ser capaz de exercitar sua capacidade de julgamento e definir o que deverá ser feito nas circunstâncias descritas pelo caso. Normalmente, isso deverá requerer a formulação de um plano de ação.

Esse tipo de caso é útil quando se precisa melhorar as habilidades de pensamento criativo ou de julgamento, ou mudar atitudes dos alunos. Também é excelente para avaliar o desempenho do aluno sob várias situações, uma vez que fornece um ambiente livre de riscos no qual o aluno pode observar, de imediato, as consequências de suas decisões.

 

5) Estudo de caso do tipo aplicação (Exercise)

A prática de certas técnicas, particularmente aquelas que envolvam manipulações quantitativas (por exemplo, em um curso de Química ou de Enfermagem), torna-se mais fácil e eficaz se os dados forem apresentados na forma de casos. O aluno pode perceber se a manipulação que está realizando tem relação com alguma habilidade necessária à sua atuação profissional de modo mais intuitivo do que se estivesse apenas realizando um exercício acadêmico.

 

6) Estudo de caso do tipo quebra de sequência (Sequential)

A técnica utilizada neste tipo consiste em interromper a ação em um ponto crítico do processo descrito no caso, de modo que o aluno possa antecipar consequências ou sugerir linhas de ação. A descrição do caso então continua e faz-se uma análise dos motivos das eventuais diferenças encontradas entre as previsões do aluno e o que de fato aconteceu. Essa técnica é excelente para melhorar habilidades de análise e síntese.

 

7) Estudo de caso do tipo complexo (Complex)

Neste tipo, a tarefa do aluno é trazer à tona os dados subjacentes a fim de tomar as decisões corretas. Esses dados não são fáceis de identificar, porque estão submersos numa massa enorme de informações, muitas das quais irrelevantes, e que são propositadamente apresentadas como “distraidoras”. Casos desse tipo podem ser usados dentro de uma única disciplina, ou, então, distribuídos por várias disciplinas dentro do curso. É o tipo de caso ideal quando se espera que o aluno aprenda a selecionar, ordenar e interpretar dados a fim de tomar uma decisão.

 

8) Estudo de caso do tipo caixa de entrada (In-tray)

Este tipo é uma variação do tipo “tomada de decisão”. Consiste em uma série de documentos que os gestores de uma organização poderiam encontrar em suas caixas de entrada (“caixa de entrada” em sentido literal, em cima da mesa de trabalho, ou em sentido figurado, como a caixa de entrada de um programa de e-mail). O caso vai fornecer alguma informação de background e o aluno terá um tempo limitado para pensar, decidir e informar as ações que tomaria em relação a cada documento. Este tipo se aproxima bastante de situações reais vivenciadas por esses executivos e, portanto, é muito útil para melhorar as habilidades de análise, pensamento criativo e tomada de decisão.

 

9) Estudo de caso do tipo participativo (Participant)

Neste tipo, o aluno prepara e apresenta um caso a ser estudado pelos demais alunos da turma. As principais vantagens deste tipo de caso são as seguintes:

  1. maior grau de interesse e envolvimento dos alunos;
  2. casos mais complexos e desafiadores;
  3. maior responsabilidade dos alunos em relação ao processo de aprendizagem;
  4. consequente redução da dependência do professor ou tutor.

Estudos de caso participativos podem promover a integração e o espírito de equipe, uma vez que os casos apresentados pelos alunos quase sempre se relacionam a problemas reais vivenciados por eles. A produção desse tipo de caso poderá compor a avaliação de uma disciplina ou treinamento.

 

10) Estudo de caso do tipo situacional (Situation)

Este tipo descreve eventos que podem ser vistos tanto como uma situação de “sucesso” quanto como uma situação de “fracasso”. Embora as situações apresentadas sejam bastante claras, elas não são assim percebidas pelos personagens do caso. Um exemplo é quando um dos personagens exibe, sem perceber, um comportamento ofensivo e preconceituoso para com outro personagem. É um tipo de caso excelente para melhorar a capacidade de análise. O aluno aprende a examinar criticamente os comportamentos dos personagens à luz das evidências apresentadas no caso. Além disso, estudos de caso situacionais se ajustam bem a cursos ou treinamentos focados na prevenção de problemas. A suposição é de que, se o aluno for informado da ocorrência de possíveis problemas, e se for capaz de analisar e compreender as suas causas, a tendência será evitar esse tipo de problema no futuro.

 

Bancos de casos no Brasil

A título de contribuição, seguem abaixo os links para alguns bons bancos de casos disponíveis em língua portuguesa:

 

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