Fazer testes é melhor do que apenas estudar

 

Teste surpresa

Neste post pretendo apresentar os resultados de uma pesquisa realizada na área acadêmica, com implicações práticas para o nosso trabalho como designers instrucionais.

Essa pesquisa foi feita nos EUA e tem o título de “Test-Enhanced Learning – Taking Memory Tests Improves Long-Term Retention”. Foi conduzida pelo prof. Henry Roediger, do Departamento de Psicologia da Washington University in St. Louis.

Os dados são bem atuais e acredito que valha a pena discuti-los.

A revista “Record”, dessa universidade, publicou, em 2006, um artigo sobre os resultados da pesquisa. A versão original desse artigo pode ser acessada clicando-se aqui. Apresento abaixo uma versão traduzida, adaptada e resumida.

A despeito da reputação de ser uma ferramenta cruel nas mãos de professores que tentam provocar medo nos corações de alunos despreparados, os testes – quando aplicados com frequência e desde o início do processo de ensino – podem ser o melhor amigo do estudante, quando se trata de compreender e reter informações no longo prazo.

Segundo o professor Roediger, o estudo efetuado indica que os testes podem ser usados como um recurso poderoso para melhorar a aprendizagem, e não apenas avaliá-la. Os alunos que fazem testes de autoavaliação com frequência, enquanto estudam o material de uma disciplina, podem ser capazes de aprender mais e em menos tempo do que se apenas ficassem estudando e reestudando esse material. Assim, a opção de oferecer testes mais frequentes ao longo de uma disciplina pode melhorar a aprendizagem dos alunos e promover a retenção do material muito tempo depois de a disciplina ter sido finalizada.

Talvez tão importante quanto as constatações acima seja o fato de que esse estudo demonstra que os alunos que se baseiam apenas em estudo e reestudo, frequentemente terminam com uma falsa sensação de confiança em seu domínio da matéria.

Como foi feita a pesquisa?

Na verdade, foi um estudo bastante simples. Um grupo de alunos (que vamos chamar de grupo “estudo – teste”) estudou um trecho de um texto literário por cerca de cinco minutos e, em seguida, fez um ou três testes de recordação imediata, sem receber feedback a respeito da correção de suas respostas. Um outro grupo de alunos (que vamos chamar de grupo “estudo – reestudo”) não fez testes nesta fase, mas puderam reestudar o texto por mais cinco minutos toda vez que os alunos do primeiro grupo estavam envolvidos em uma sessão de testes.

Após essa primeira fase, os alunos dos dois grupos foram solicitados a fazer um teste final de retenção, que foi aplicado em três intervalos diferentes: cinco minutos, dois dias e uma semana depois da Fase 1.

O teste final aplicado cinco minutos depois da Fase 1 mostrou que o grupo “estudo – reestudo” teve um desempenho melhor.

Contudo, apenas dois dias depois, o grupo “estudo – reestudo” já havia esquecido bastante o que havia aprendido, com um desempenho um pouco abaixo do grupo “estudo – teste”.

No teste final ministrado uma semana depois, o grupo “estudo – teste” teve um desempenho significativamente melhor, lembrando 61% do texto, em comparação com apenas 40% do grupo “estudo – reestudo”.

O grupo “estudo – reestudo” tinha lido o texto cerca de 14 vezes, mas ainda assim recordou menos que o grupo “estudo – teste”, que leu o texto cerca de 3,4 vezes em sua única sessão de estudo.

Segundo o professor Roediger, os testes claramente melhoram a memória de longo prazo por meio de algum mecanismo que é tanto diferente quanto mais eficaz que apenas estudar e reestudar.

Embora os participantes dessa pesquisa tenham sido estudantes universitários com idade entre 18 e 24 anos, os achados obtidos têm implicações importantes para todos os níveis educacionais. Conforme o professor Roediger notou, muitos alunos continuam a depender fortemente de técnicas de estudo e reestudo, muitas vezes com o encorajamento de seus professores.

Uma memória de longo prazo ainda melhor pode ser possível, segundo ele, se os alunos forem avisados de que serão testados com frequência, se forem estimulados a revisar o material pelo menos uma vez antes de cada teste, e se receberem feedback imediato sobre a correção de suas respostas.

Essa pesquisa foi publicada na revista “Psychological Science”, edição de março de 2006, e seu texto completo pode ser acessado clicando-se aqui.

Bem, mas quais são as implicações práticas para nós, DIs, aqui no Brasil?

Eu sou francamente a favor de testes de autoavaliação, com feedback imediato, e ministrados com frequência, como um importante recurso para a melhoria dos processos de aprendizagem, tanto em ambiente acadêmico quanto corporativo.

Mas tenho conversado com DIs que atuam na área acadêmica e tenho observado que há pouco espaço para a introdução de mais testes no currículo. Por quê? Por dois motivos: um são os alunos; outro são os professores.

Parece que os alunos brasileiros não gostam de responder a testes, mesmo que sejam opcionais, mesmo que sejam de autoavaliação, mesmo que não valham nota. E pedem a retirada desses testes, sempre que possível. Eles preferem mais “atividades de estudo” que, no caso da EAD, quase sempre significa mais vídeos gravados pelo professor. Sei do caso de uma universidade que excluiu do currículo todos os testes de autoavaliação, opcionais, porque os alunos estavam reclamando do “excesso de atividades”. Note-se que se tratavam de atividades “opcionais”. Note-se, ainda, que as estratégias de ensino – aprendizagem, nessa universidade, em última instância, estão sendo determinadas pelos alunos.

Uma expressiva parcela dos nossos professores tem imensa dificuldade para construir questões de avaliação, talvez por falhas em seus processos de treinamento para se tornarem professores. Muitos não sabem – e nem sequer desconfiam – que há uma relação visceral entre objetivos de aprendizagem e testes de aprendizagem. Assim, torna-se um suplício para esses professores elaborar muitos e frequentes testes de aprendizagem. Para eles, é melhor que haja apenas uma ou duas provas ao longo de cada semestre.

Assim, apesar de estudos e pesquisas apontarem melhores caminhos para o sucesso de empreendimentos educacionais, nossas instituições perseveram em levar à frente estratégias que parecem não ser tão boas. Será que algum dia vamos conseguir superar esse estado de coisas?

Quais são as suas impressões?

 

 

2 Comentários

  1. Mauricio Mateus

    Como todo recurso instrucional, ele pode ser usado conforme o objetivo que se busca.

    Estudos de caso são bons para lidar com situações que envolvam cenários mais abertos, conteúdos que envolvam múltiplos inputs e outputs.

    Mas, quando precisamos fixar conteúdos objetivos, estritos, os testes são bem efetivos.

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    1. Wagner G. A. DestroWagner G. A. Destro (Post author)

      Olá, Mauricio. Eu diria que não há uma relação de exclusão entre estudos de caso e testes. Tanto os casos são bons para fixar conteúdos objetivos quanto os testes são efetivos para a aprendizagem de conteúdos que envolvam cenários mais abertos.

      Responder

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