Mitos e crendices em educação e treinamento

“Unlike medicine, agriculture, and industrial production, the field of education operates largely on the basis of ideology and professional consensus. As such, it is subject to fads and is incapable of the cumulative progress that follows from the application of the scientific method… We will change education to make it an evidence-based field.”

[U.S. Department of Education Strategic Plan 2002-2007 (p.48)]

 

Você concorda com a afirmação feita pelo Departamento de Educação dos Estados Unidos?

Bem, eu concordo. Um dos interesses deste blog é contribuir para que as nossas áreas de educação e treinamento também sejam campos de atuação baseados em evidências.

Para tanto, um dos caminhos é desvelar e discutir mitos, crendices – e até mesmo superstições – que permeiam as nossas práticas educativas.

Para fazer isto neste post, eu vou me basear nos seguintes artigos (cuja leitura desde já recomendo):

Will Thalheimer também apresenta, em seu texto, um resumo de quatro artigos publicados em:

  • Revista Educational Technology: “Special Issue”, edição de novembro/dezembro de 2014.

Para começo de discussão, considere, por exemplo, as seguintes afirmações:

  1. os alunos aprendem melhor quando o método de ensino está ajustado aos seus estilos de aprendizagem;
  2. para aprender, alguns alunos usam mais o lado esquerdo do cérebro, enquanto outros usam mais o lado direito;
  3. em geral, as pessoas lembram 10% daquilo que leem; 20% daquilo que ouvem; 30% daquilo que veem, etc;
  4. em e-Learning, todas as telas com texto devem ter também narração em áudio;
  5. em educação corporativa, o melhor modelo a ser aplicado é o 70-20-10.

Para muitos educadores e desenvolvedores de produtos educacionais essas afirmações são verdades indiscutíveis. Muitas empresas se estabeleceram e têm ganhado dinheiro vendendo serviços relacionados a conceitos como “estilo de aprendizagem” e “modelo 70-20-10”. O problema é que todas essas afirmações são mitos e crendices que vêm se perpetuando ao longo dos anos. Na melhor das hipóteses, não se conseguiu até hoje evidências científicas sólidas que justifiquem a utilização de qualquer um desses conceitos.

Vejamos o caso específico do item 3: Em geral, as pessoas lembram 10% daquilo que leem; 20% daquilo que ouvem; 30% daquilo que veem, etc. Trata-se do famoso “gráfico de retenção da aprendizagem”, que, muitas vezes, é apresentado na forma de texto. Assim:

  • Em geral, as pessoas lembram:
    • 10% daquilo que leem;
    • 20% daquilo que ouvem;
    • 30% daquilo que veem;
    • 50% daquilo que veem e ouvem;
    • 70% daquilo que falam;
    • 90% daquilo que fazem e falam.

Mas, o mais comum é que seja apresentado na forma de gráfico ou tabela (daí o seu nome). Veja um exemplo:

Grafico de retencao

(Fonte: artigo de Will Thalheimer)

Chama atenção, logo à primeira vista, a falta de coerência entre os números utilizados em cada gráfico ou tabela. No texto, as pessoas lembram 20% daquilo que ouvem; no gráfico em inglês, esse valor é de 30%. Isso não é circunstancial. Se você fizer uma pesquisa na internet, vai encontrar várias discrepâncias nos valores atribuídos a cada categoria (e mesmo na identificação das categorias).

Mais ou menos em paralelo ao desenvolvimento desses gráficos de retenção da aprendizagem, o educador americano Edgar Dale (1900 – 1985) desenvolveu a ideia de um “cone da aprendizagem”, que ficou também conhecido pelo rótulo de “Cone de Dale”. O artigo de Will Thalheimer exibe a imagem original do cone da aprendizagem, fotocopiada de um livro de Edgar Dale, de 1969. Veja:

Cone_Dale

(Fonte: artigo de Will Thalheimer)

Em algum momento alguém (provavelmente mais de uma pessoa) teve a brilhante ideia de juntar o gráfico de retenção da aprendizagem com o cone de Dale, dando origem a uma imagem como esta:

cone_aprendizagem

Note que o cone original de Dale, de 1969, não tinha nenhum número. Alguém achou que atribuir valores a cada nível do cone daria a esse constructo uma aparência mais científica e confiável. Muita gente acreditou nesses números e, desde então, o cone numérico vem sendo ensinado como princípio educacional mundo afora. Já há relatos de seu uso nos sistemas educacionais da China e de países árabes. Thalheimer, em seu artigo, exibe vários exemplos de gráficos e cones. Afinal, entre o cone original e os cones atuais, coloridos e com números, qual tem maior apelo emocional?

Segundo Cathy Moore, uma maneira de combater os mitos e crendices em nossa área de atuação é expô-los à luz do sol, ou seja, é preciso falar, discutir, duvidar, buscar evidências, testar hipóteses antes de aceitar qualquer coisa como verdadeira.

Por exemplo, na área da educação corporativa, Moore lista várias crenças que são tidas por muita gente como verdadeiras. Eis algumas delas:

  • se há um problema de desempenho, então treinamento é a solução;
  • treinamento é um evento de aplicação única, com começo, meio e fim;
  • treinar significa colocar informações nas cabeças das pessoas;
  • o trabalho do DI é fazer com que a informação contida em um treinamento seja fácil de entender e de lembrar;
  • nós devemos verificar a aprendizagem por meio de uma avaliação logo após o término do treinamento.

Bem, e se essas suposições não forem verdadeiras? Estaremos fazendo um bom trabalho como designers instrucionais se aceitarmos, de maneira acrítica, essas e outras suposições como princípios educacionais válidos?

No artigo “The Mythical Retention Chart and the Corruption of Dale’s Cone of Experience”, publicado no “Special Issue” da revista Educational Technology, os autores (segundo Thalheimer) afirmam que:

“Learners—both face-to-face and distant—in classrooms, training centers, or homes are being subjected to lessons designed according to principles that are both unreliable and invalid. In any profession this would be called malpractice.” (p. 6).

Essa afirmação é muito séria e precisa ser amplamente debatida. Encerro, então, com a seguinte questão: será que nós, designers instrucionais, ao desenharmos materiais e experiências de aprendizagem de acordo com princípios que não temos certeza se são válidos e confiáveis, estaremos incorrendo em uma conduta profissional negligente?

 

1 Comentário

  1. fsdfsfsfs

    Ridículo

    Responder

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