O conceito de competência

Um dos conceitos com os quais os designers instrucionais se defrontam em seu trabalho é o de “competência”, principalmente quando estão lidando com a definição de objetivos de aprendizagem.

A melhor definição que conheço de competência é a seguinte: competência é uma classe de comportamentos organizados em termos de conhecimentos, habilidades e atitudes.

A partir dessa definição, a primeira dedução que podemos fazer é que competência não se refere a um único comportamento, mas a uma classe, ou seja, um conjunto de comportamentos logicamente conectados. A falta de compreensão desse fator implica alguma dificuldade para se ensinar competências, porque, na prática, a tendência de professores e DIs é reduzir a competência a apenas um tipo de comportamento.

Outra dedução é que os comportamentos envolvidos em uma competência precisam estar organizados, ou seja, é preciso haver equilíbrio entre os conhecimentos, habilidades e atitudes para que uma competência funcione. E isso é outro fator que implica ainda mais dificuldade para o ensino de competências, porque raramente os processos didáticos formais consideram a importância do equilíbrio entre essas três categorias.

Em nosso país, o meio acadêmico parece estar refém da filosofia e narrativa construtivistas. Preocupa-se apenas em levar o aluno a “construir conhecimento”, acreditando que uma expressão vazia como essa, mas de sonoridade edificante, seria capaz de conceder nobreza a um cenário que, despido desse recurso, se resume a um professor que fala (nem sempre bem) e a um grupo de alunos que ouve (quase sempre mal). E isso acontece tanto no ensino presencial, com sua tecnologia “cuspe e giz” atualizada agora para a tecnologia “cuspe e caneta Pilot”, quanto no ensino à distância, com suas videoaulas quase sempre muito chatas. O problema é que há uma preocupação básica em transmitir conhecimentos que, sem o respaldo das habilidades e atitudes associadas, simplesmente não se transferem para a vida profissional dos alunos.

 

Já o ensino corporativo, com seu forte sentido de urgência nas coisas do dia a dia, geralmente oferece foco demasiado na aprendizagem de processos e procedimentos (habilidades), algum foco nos conhecimentos subjacentes e quase nenhum foco nas atitudes.

Assim, para um ensino mais eficaz e eficiente, em eventos presenciais e à distância, será preciso – sempre – equilibrar os conteúdos relativos a conhecimentos, habilidades e atitudes.

De longe, as atitudes são a categoria mais negligenciada nas ações didáticas. Geralmente, a aprendizagem de atitudes ocorre por serendipidade, sem influência direta de professores e designers instrucionais.

 

 

 

Exemplos práticos desse tipo de problema são abundantes para onde quer que se olhe. Vou me limitar a dois exemplos que me foram relatados:

  1. Alunos de um curso de Pedagogia ficaram três anos e meio, dos quatro anos de duração do curso, sem planejar e ministrar uma única aula em situação simulada (entre outras carências práticas). Receberam muita informação teórica (conhecimentos) e quase nada de experiência prática (habilidades e atitudes). Depois de formados, eles estarão preparados para atuar no mercado de trabalho?
  2. Empregados de uma instituição financeira participaram de um treinamento em Segurança de Dados, em que foram solicitados a ler muitos textos (conhecimentos) e a fazer algumas atividades práticas (habilidades). Mas a transferência de conhecimentos e habilidades para a situação de trabalho foi baixíssima. Apesar de saberem o que fazer e como fazer, a maioria não agia de acordo com o esperado, porque acreditava que a segurança dos dados não era um problema seu, mas de uma área específica da instituição. O diagnóstico é simples: as atitudes dos treinandos em potencial não foram verificadas durante a análise de necessidades e, portanto, o treinamento falhou porque não trabalhou a mudança de atitudes.

Você, designer instrucional da área acadêmica ou corporativa, como trabalha o ensino de atitudes?

 

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