Objetivos de ensino: questões básicas e relevantes

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Vimos, em post anterior, a importância de se formular objetivos de ensino úteis, relevantes e completos.

Mas, como tenho percebido que ainda há muitas dúvidas e muito desconhecimento, por parte dos designers instrucionais, a respeito da utilidade e relevância dos objetivos de ensino, vou tentar responder, neste post, a algumas questões que considero básicas.

 

Objetivos de ensino são mesmo necessários?

Tenho notado uma postura algo mecanicista de alguns DIs ao elaborar os objetivos de um curso ou disciplina. Eles tratam essa elaboração mais como uma etapa burocrática a ser cumprida, e não como algo importante que vai balizar todo o desenvolvimento didático posterior. Ora, se os objetivos são apenas uma etapa burocrática, não poderiam ser simplesmente eliminados?

Mas algo ainda mais surpreendente e assustador acontece com alguns DIs dos EUA, principalmente os que trabalham com e-Learning, em ambientes corporativos. Eles propõem a simples e sumária extinção da tela de objetivos. O motivo? É que os alunos americanos acham “boring” a tela de objetivos. Ou seja, é uma tela muito chata, enfadonha. Agora, imagine se todos os conteúdos que os alunos considerassem chatos fossem eliminados de um curso. Certas disciplinas sequer existiriam. Felizmente, a maioria desses DIs parece que está adotando a decisão mais lógica: se a tela de objetivos é chata, então vamos tentar melhorar essa tela, vamos torná-la mais interessante. Aliás, essa decisão deveria valer para todos os conteúdos considerados chatos, mas relevantes, tendo em vista os objetivos.

Então, a resposta é “sim”. Objetivos são mesmo necessários.

Considere que os sistemas educacionais são sistemas formais de ensino – aprendizagem, ou seja, são providos de intencionalidade, são orientados para a mudança de comportamento. Se há intenção, então ela precisa ser explicitada e claramente comunicada. Esse é o papel do objetivo de ensino.

Objetivos de ensino ou de aprendizagem?

Há um movimento em voga, não só no Brasil, mas em outros países também (EUA e Inglaterra, por exemplo) para se colocar o foco na “aprendizagem”, em detrimento do “ensino” ou “instrução”. Daí haver expressões como:

  • e-Learning”, mas não “e-Instruction”;
  • gestão da aprendizagem, em vez de gestão do processo ensino – aprendizagem;
  • aprendizagem on-line, em vez de ensino on-line, e assim por diante.

A ideia subjacente é que, em se fazendo isso, está se colocando o aluno, o estudante, em primeiro plano, uma vez que ele seria o ator mais importante desse processo. Bobagem. Todos os atores que têm um papel a desempenhar no processo educativo são importantes, seja professor, aluno, administrador, auxiliar ou faxineiro. O foco deve estar na relação existente entre ensino e aprendizagem, e não em uma das pontas.

Para ser ainda mais claro: aprendizagem é um processo interno ao indivíduo, ao qual não se tem acesso direto. Ela pode ser deduzida apenas por meios indiretos, como a verificação de mudanças no comportamento daquele que aprende. Assim, não faz sentido falar em “aprendizagem virtual”, em “gestão da aprendizagem” etc. Não se pode gerenciar, controlar ou medir aquilo que não conhecemos. Assim, faz tanto sentido falar em “objetivos de aprendizagem” quanto em “objetivos de pensamento” ou “objetivos de emoção”. Um professor não tem como determinar o modo pelo qual seus alunos vão pensar ou se emocionar enquanto estiverem estudando. Do mesmo modo, não tem como determinar o modo pelo qual irão aprender, ou se vão mesmo aprender alguma coisa. O professor controla apenas um dos lados da equação ensino – aprendizagem, que é o lado do ensino.

Na verdade, trata-se apenas de uma estratégia de marketing, não de tecnologia educacional. Assim, sempre que não houver uma estratégia de marketing a ser defendida, prefira o termo “objetivos de ensino”.

Objetivos são uma forma de autoritarismo?

Para alguns adeptos do movimento “foco na aprendizagem” não se deve formular objetivos de ensino, porque os alunos já sabem o que é importante aprender, e deveriam ser deixados “livres” para aprender aquilo que consideram importante, sem serem “engessados” por objetivos de ensino. Para eles, os objetivos seriam uma forma de o professor exercer seu autoritarismo.

Não vou me dar ao trabalho de discutir o ranço ideológico impregnado no discurso de quem acredita que propor objetivos é uma forma de autoritarismo do professor. Essas narrativas de “vitimização” do aluno, de que o aluno é o “oprimido”, de que o professor é o “agente opressor” já cansaram.

Seria muito melhor discutir um sistema de ensino que, apesar do discurso pretensamente libertário, produz fracassados em série (com poucas e honrosas exceções que, aliás, justificam a regra). O fracasso escolar não é só um problema brasileiro, é claro. Mas estarmos em boa companhia não melhora o nosso quadro. Dois educadores americanos, Thomas Nagel e Paul Richman, escreveram um livro, há mais de quarenta anos, cujo título diz tudo: Ensino para Competência – Uma estratégia para eliminar fracasso. Eles estavam preocupados com a realidade escolar lá deles, dos EUA, mas praticamente toda a análise que fazem do fracasso escolar cabe direitinho no nosso contexto. Recomendo vivamente a sua leitura.

Não, objetivos não são uma forma de autoritarismo. Eles ajudam a eliminar fracasso.

Todo o conteúdo a ser ensinado deve estar previsto nos objetivos?

Não. É claro que não. É importante que você, DI, saiba de uma verdade tão óbvia quanto frequentemente esquecida: os objetivos definem o nível mínimo de aprendizagem esperado de cada aluno. Nunca o nível máximo. O processo de ensino jamais deve se limitar apenas aos comportamentos expressos nos objetivos. A partir do momento em que o aluno demonstra que alcançou esse nível mínimo, ele é livre para expandir sua aprendizagem, para saber mais, para descobrir mais a respeito do conteúdo em estudo. O aluno que não alcança o nível mínimo vai ter a opção de passar por novas experiências de aprendizagem, novos materiais e novos testes. Mas, para que isso aconteça, ambos os tipos de aluno precisam ser incentivados e orientados pelo professor, que, no planejamento didático, deve prever tempo e organizar experiências tanto para quem aprende mais depressa quanto para quem demonstra mais dificuldade. Para os alunos do primeiro tipo, ele vai planejar experiências enriquecedoras ou reforçadoras. Para os do segundo tipo, experiências corretivas ou remediativas. (Nota: Saiba mais a respeito dessas estratégias lendo o post “Educação referenciada a norma e a critério”). O ponto fundamental é que, com esse planejamento e essa prática, todos os alunos terão condições de ser bem sucedidos nos testes de avaliação.

Pergunto: existe força mais libertadora que o sucesso pessoal?

Todos os objetivos devem ser mensuráveis?

Pelo que tenho visto, todos os objetivos propostos em programas de ensino, tanto na esfera acadêmica quanto na corporativa, caem em uma de duas categorias: ou são objetivos acadêmicos ou são de desempenho. Por exemplo:

  • Objetivo acadêmico: Ao final desta disciplina, espera-se que o aluno aprenda a descrever como o tom de voz afeta a interação com o cliente.
  • Objetivo de desempenho: Ao final desta disciplina, espera-se que o aluno aprenda a usar um tom de voz adequado na interação com o cliente.

Ambos os tipos de objetivo são mensuráveis e, portanto, podem ter o seu alcance avaliado formalmente. Isto significa que todos os objetivos de ensino devem ser mensuráveis, certo?

Errado!

Há um terceiro tipo de objetivo de ensino que é desconhecido pela grande maioria dos designers instrucionais. Mesmo quem o conhece, costuma associá-lo, erroneamente, apenas ao ensino de artes. Essa categoria é chamada de “objetivo expressivo”.

Um objetivo expressivo descreve aquilo que se espera que o aluno aprenda por experiência própria. (NAGEL e RICHMAN, 1974). Nesta situação, o professor, por meio de um objetivo expressivo, estabelece uma expectativa a respeito daquilo que o aluno deverá aprender, sem utilizar verbos de ação claros e mensuráveis.

Vejamos alguns exemplos de objetivos expressivos:

Esperamos que você seja capaz de:

  • Manifestar suas emoções depois de ouvir a Quarta Sinfonia, de Brahms.
  • Compartilhar com os colegas suas experiências depois de visitar o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.
  • Valorizar a elaboração de um plano didático detalhado.
  • Expor suas ideias a respeito de um livro de Economia que tenha lido no semestre.
  • Conscientizar-se da importância de adotar práticas sustentáveis.

Como dissemos, essa classe de objetivos não é objeto de avaliação formal. Assim, eu posso ter um curso composto apenas por objetivos acadêmicos ou de desempenho, já que ambos são avaliáveis, mas jamais poderei ter um curso composto apenas por objetivos expressivos. Esta classe de objetivos pode – e deve – ser usada apenas como complemento aos objetivos acadêmicos e de desempenho.

Retomando os exemplos de objetivo dados acima, poderíamos ter:

Nesta disciplina, esperamos que você aprenda a:

  • Objetivo acadêmico: descrever como o tom de voz afeta a interação com o cliente.
    Ou:
  • Objetivo de desempenho: usar um tom de voz adequado na interação com o cliente.
    E:
  • Objetivo expressivo: valorizar a importância de uma atitude simpática na interação com o cliente, depois de assistir aos dois filmes indicados no Plano de Estudo.

Que tal você incluir pelo menos um objetivo expressivo no próximo curso que vai desenvolver?

Referência

NAGEL, T.S. & RICHMAN, P.T. Ensino para Competência: Uma estratégia para eliminar fracasso. Porto Alegre: Editora Globo, 1974.

 

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