Objetivos de ensino: úteis, relevantes e completos

 

Objetivo

Este post vai tratar de um assunto que é fundamental para o sucesso de eventos didáticos, tanto acadêmicos quanto corporativos: a correta formulação dos objetivos instrucionais.

A formulação de objetivos é uma tecnologia simples apenas na aparência. Como veremos a seguir, ainda há muito desconhecimento a respeito do formato, valor e significado de um bom objetivo didático.

A formulação de objetivos didáticos atende a duas finalidades principais:

  1. nas fases de planejamento e desenvolvimento de um curso, serve para orientar o professor (e toda a equipe didática, quando houver) na definição do conteúdo, do sequenciamento, dos meios, das atividades e da avaliação;
  2. na fase de aplicação (entrega), serve para orientar o aluno a respeito do que se espera que ele aprenda, qual o nível esperado de aprendizagem e qual o critério de sucesso (aprovação).

Essas duas finalidades parecem óbvias, mas, na prática, há professores que, na fase de planejamento, definem os objetivos apenas para cumprir uma obrigação burocrática. Os objetivos são simplesmente esquecidos durante a produção dos materiais didáticos e, o que é pior, também durante a produção das questões de avaliação. Por sua vez, os alunos, acostumados a não ver relação entre objetivos, conteúdo e questões de prova, não se interessam em entender claramente o que se espera deles em uma dada disciplina. Passam boa parte do tempo didático tentando adivinhar “o que vai cair na prova”.

Elaboração de objetivos de ensino

As bases para a formulação de um bom objetivo de ensino foram estabelecidas por Robert Mager, na década de 1960, nos Estados Unidos. (Nota: veja a referência ao final deste post). Com poucas variações, a fórmula proposta por ele vem sendo amplamente adotada tanto no ensino acadêmico quanto no ensino corporativo em nosso país.

A fórmula de Mager diz que os objetivos de ensino devem ser compostos por três elementos: desempenho, condição e critério.

Com o passar do tempo, os componentes “condição” e “critério” foram caindo em desuso, e o objetivo de ensino ficou reduzido a uma descrição do desempenho esperado (com todos aqueles cuidados que você já deve saber: focar o comportamento do estudante, não do professor; não utilizar verbos que dão margem a múltiplas interpretações, como entender, conhecer etc.).

Vejamos um exemplo: suponha que o objetivo de uma disciplina do curso de Economia de uma dada universidade seja o seguinte:

Objetivo da disciplina

Ao final desta disciplina, esperamos que você tenha aprendido a analisar como as relações de compra e venda são estabelecidas nas diversas estruturas de mercado.

Trata-se de um objetivo bem formulado, não é? Eu diria que sim. Está de acordo com a fórmula adotada pela maioria de nossas universidades. O desempenho está focado no aluno e o verbo de ação é claro e relevante (Nível IV da Taxonomia de Bloom). Só que há um problema: ele está incompleto! Objetivos que focam apenas o desempenho atendem apenas a uma de suas finalidades, qual seja, a de orientar o professor no planejamento e desenvolvimento de sua disciplina. Mas não ajudam o aluno a se preparar para ter sucesso na disciplina. Não informam ao aluno as condições em que ele terá que demonstrar o desempenho esperado, nem os critérios que definirão se esse desempenho foi bem-sucedido ou não. No exemplo dado, o aluno não sabe em que situação vai ter que demonstrar que aprendeu a analisar aquele objeto, nem se há critérios específicos para diferenciar entre bom, mau e médio desempenhos.

Assim, Mager tinha razão quando afirmava que o objetivo de ensino deveria ser composto por três partes. Mas como inserir os componentes “condição” e “critério”, nos enunciados de objetivo, de forma relevante para o aluno?

Atenção para a resposta: depois de definir o desempenho esperado em um enunciado de objetivo, o professor precisa, em seguida, preparar o teste de avaliação da disciplina.

A princípio, parece estranho que o professor tenha que montar a avaliação antes de preparar o conteúdo. Mas isso é o correto, metodologicamente falando. As questões de avaliação devem ser construídas com base nos objetivos, e não nos materiais de estudo (livros, apostilas etc.).

Os componentes “condição” e “critério” só podem ser inseridos no enunciado de um objetivo tendo por base o teste de avaliação e os critérios de correção de cada questão.

Vamos, então, melhorar o exemplo dado:

Objetivo da disciplina

Ao final desta disciplina, esperamos que você tenha aprendido a analisar como as relações de compra e venda são estabelecidas nas diversas estruturas do mercado.

Você deverá demonstrar a aquisição dessa competência nas seguintes situações de teste:

1) Dado um pequeno caso (15 a 20 linhas), você deverá identificar a estrutura desse mercado e analisar como as relações de compra e venda estão estabelecidas. Valor = 4 pontos.

2) Dada uma notícia de jornal retirada da internet, referente à situação econômica de um determinado país, você deverá identificar a estrutura desse mercado e analisar como as políticas de importação e exportação estão estabelecidas. Valor = 4 pontos.

3) Dado um conjunto de 10 questões de múltipla escolha, você deverá identificar a relação correta de compra e venda face à estrutura de mercado descrita no enunciado da questão. Valor = 0,2 por questão.

Seu desempenho será considerado satisfatório se você obtiver, no mínimo, a nota 8,0 (oito).

Notou a diferença? Agora os alunos sabem o que se espera deles nessa disciplina. Não vão precisar adivinhar o que “vai cair na prova”. Por sua vez, o professor agora tem parâmetros claros para produzir a sua disciplina e preparar as experiências de aprendizagem adequadas. Um de seus objetivos pessoais será fazer com que a maioria dos alunos da turma tenha um bom desempenho na avaliação. Aliás, esse não deveria ser um objetivo pessoal de todo professor?

Naturalmente, os componentes “condição” e “critério” devem ser adaptados às especificidades de cada situação concreta de ensino. Por exemplo, em um programa de EAD, a “condição” deverá informar se se trata de uma prova on-line ou da prova final, presencial. No caso de prova on-line, deverá informar se haverá um tempo pré-determinado para o aluno responder a cada questão, e assim por diante. O conceito de “critério” de sucesso ou aprovação também merece discussão. Nas universidades, a tradição tem sido definir a nota 7,0 (sete) como o mínimo necessário para a aprovação. Por que um valor tão baixo? Não sei. Desconheço a fundamentação conceitual ou metodológica para essa decisão. De todo modo, mesmo que a nota final para aprovação seja no mínimo 7,0, nada impede que o ponto de corte nas provas intermediárias seja um pouco mais alto.

Teste de realidade do objetivo

Há, ainda, outra vantagem estratégica ao se trazer o teste de avaliação para o enunciado do objetivo didático. Vou chamar essa vantagem de “teste de realidade do objetivo”.

Um exemplo vai ajudar a esclarecer. Nós, designers instrucionais, temos uma preocupação legítima com a relevância social e profissional dos objetivos didáticos que propomos. Vamos supor que você esteja planejando uma disciplina para um curso de vendas. Analise o quadro abaixo e depois diga qual o tipo de objetivo que você prefere.

Objetivos acadêmicos

Objetivos de desempenho

Descrever como o tom de voz afeta a interação com o cliente. Usar um tom de voz adequado na interação com os clientes.
Discutir a importância de causar uma boa impressão no cliente. Causar uma boa impressão nos clientes.
Relacionar os cinco passos da “Escala de Satisfação” do cliente. Tornar um cliente insatisfeito em um cliente satisfeito.

 

(Nota: Os exemplos acima de objetivos foram tirados e adaptados do blog da Cathy Moore).

Se você joga no meu time, com certeza vai preferir que sejam propostos objetivos de desempenho. Eu e a Cathy Moore preferimos. Eles são muito mais impactantes que os respectivos objetivos acadêmicos e vão tornar a disciplina muito mais relevante.

Mas… (e sempre tem um “mas”) Tente estabelecer mentalmente as condições e critérios para cada um dos objetivos de desempenho.

Difícil, não é?

Se você é um DI acadêmico, pergunto: como avaliar a aquisição desses desempenhos por meio de provas de lápis e papel? Como avaliar “um tom de voz adequado” por meio de questões objetivas? Mesmo se você for um DI corporativo, que está desenvolvendo um treinamento de vendas, não estará em posição mais confortável. A avaliação mais adequada seria observar cada aluno atendendo clientes, em situação real de trabalho, e não utilizar as “manjadas” simulações e role-playings em que outros alunos fazem o papel de clientes.

Esse é o tal teste de realidade dos objetivos: se o objetivo está em nível de desempenho, a avaliação também precisa estar em nível de desempenho.

Em suma, não é recomendável propor, como objetivo, que o aluno seja capaz, digamos, de elaborar o planejamento estratégico da empresa se, na avaliação, ele não vai elaborar planejamento algum, de empresa alguma.

Isso não significa, é claro, que objetivos de desempenho mais relevantes sejam abandonados, mas que haja harmonia e clareza entre objetivos, experiências de aprendizagem e atividades de avaliação.

Prática antecipada

Há um componente metodológico da tecnologia de objetivos instrucionais que, apesar de ser aparentemente óbvio, costuma ser frequentemente esquecido. Chama-se “prática antecipada”. Outro exemplo vai ajudar a esclarecer:

Suponha que essa disciplina do curso de Economia a que estamos nos referindo seja ministrada tanto na modalidade presencial quanto à distância. No formato presencial, na maior parte do tempo o professor fala, fala, fala e, às vezes, escreve algo no quadro, às vezes solta uma pergunta para a classe etc. Mas é ele quem identifica, quem analisa e quem estabelece relações. Os alunos? Os alunos apenas ouvem, bovinamente. No formato à distância, os alunos assistem a aulas digitais e a vídeos gravados pelo professor. Apenas assistem, passivamente.

A única situação em que eles fazem alguma coisa, em que demonstram a aquisição da competência expressa no objetivo, é no teste de avaliação. Aí já é tarde demais! Quem aprendeu… aprendeu. Quem não aprendeu… não vai ter mais boas oportunidades de aprender esse conteúdo.

A prática antecipada diz simplesmente que deve ser dada a todos os alunos a oportunidade de praticar, com antecedência, com calma, e com supervisão e feedback do professor, os desempenhos descritos nos objetivos e que serão exigidos na avaliação da disciplina.

A avaliação não deveria ser um momento de descoberta e surpresa para o aluno, mas uma instância de confirmação em que ele demonstra que é capaz de fazer, porque aprendeu a fazer.

Conclusão

Objetivos de ensino são uma ótima ferramenta nas mãos do designer instrucional; e objetivos completos e bem formulados o são ainda mais.

Referência

MAGER, R.F. A formulação de objetivos de ensino. Porto Alegre: Editora Globo, 1976.

 

4 Comentários

  1. Emilio Antonio Leonel Ferreira

    Wagner

    Obrigado pelas valiosas dicas.

    Um abraço

    Emílio

    Responder
    1. Wagner G. A. DestroWagner G. A. Destro (Post author)

      Obrigado a você, Emílio.
      Fico feliz pelo fato de minhas experiências estarem sendo úteis.
      Um abraço.

      Responder
  2. Elizandro

    Bom dia.
    Este post foi ótimo.

    Sobre a Prática antecipada, seria o mesmo de o professor (presencial) fazer exercícios com os alunos sobre um tema que foi ensinado?

    abs.

    Responder
    1. Wagner G. A. DestroWagner G. A. Destro (Post author)

      Apesar de, aparentemente, parecer óbvio, Elizandro, é exatamente isso. Considere que os exercícios devem medir o alcance dos objetivos propostos e, portanto, devem ser do mesmo nível das questões a serem incluídas em provas. Um abraço.

      Responder

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