Seis dicas para ajudar o DI a escrever bem

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“Escrever não é fácil; escrever bem é mais difícil ainda!”

 

Escrever bem é uma das competências mais importantes de um designer instrucional. Competência que se torna ainda mais crítica quando consideramos o contexto no qual os DIs trabalham. Vejamos:

  • no ambiente corporativo, geralmente é o DI quem escreve os materiais de e-Learning a partir das informações coletadas junto ao conteudista;
  • no mundo acadêmico, quase sempre é o DI quem reescreve ou, de algum modo, revisa e reformata os textos de EAD escritos pelos professores;
  • de qualquer modo, o DI escreve ou interfere na escrita de todos os materiais de ensino on-line;
  • o DI tem um conhecimento limitado, muitas vezes superficial, a respeito dos assuntos sobre os quais está escrevendo ou reescrevendo, tanto no mundo corporativo quanto no acadêmico;
  • o DI precisa elaborar ou trabalhar um texto que encontre o equilíbrio entre o rigor técnico na apresentação do conteúdo e a sua transmissão de forma didática, motivadora;
  • o DI precisa ter um bom conhecimento das regras gramaticais da língua portuguesa.

Por tudo isso, escrever bem é uma competência crítica para o designer instrucional.

Entretanto, quando navego por materiais de ensino on-line, é comum me deparar com textos mal escritos, seja em função de erros de digitação e de concordância, ou mesmo de pensamento confuso por parte do autor.

Por que será que isso acontece?

Eu tendo a ver uma espécie de círculo vicioso. Muitos materiais de ensino estão mal escritos porque (com raras exceções):

  • o DI não aprende a pensar e a escrever bem ao longo de sua formação acadêmica;
  • quando o DI participa de um processo seletivo em uma empresa ou universidade, as suas habilidades de redação não são avaliadas em profundidade, porque os próprios recrutadores não sabem escrever bem;
  • como, no processo de admissão, essas habilidades não foram cobradas ou foram pouco cobradas, o DI não vê problemas em continuar com suas atuais habilidades de redação, mesmo porque não haverá incentivos para se desenvolver nessa área;
  • em geral, os superiores do DI, na empresa ou na universidade, não cobram nem estimulam melhoras nessa área, porque também não sabem escrever bem;
  • quando o DI trabalha com conteudistas (na empresa) ou com professores (na universidade), estes também não sabem escrever bem, e o DI tem poucas condições de ajudar;
  • assim, voltamos ao começo: muitos materiais de ensino on-line estão mal escritos.

No caso da universidade, essa situação é muito grave: os professores também são produto do nosso sistema de ensino, e muitos escrevem mal. Isso é um fato simples da vida, mas que não é reconhecido por quase ninguém dentro da universidade. Parece que não é de “bom tom” explicitar esse tipo de dificuldade. Afinal, as universidades deveriam ser centros de excelência acadêmica…

Trata-se de um problema muito sério e que extrapola as funções do designer instrucional acadêmico!! Vou dar um exemplo prático tirado de minha experiência pessoal. Há alguns anos atrás fui incumbido de analisar materiais de ensino on-line produzidos por uma universidade privada (que já não existe mais). Fiquei estupefato por dois motivos: (1) praticamente não havia trabalho de design instrucional: os textos preparados pelos professores eram apenas distribuídos pelas telas; (2) a quantidade de erros no conteúdo textual era impressionante: havia de tudo, desde erros crassos de digitação, passando por erros de grafia e de concordância, chegando a frases sem sentido.

Quando entrei em contato com a equipe de produção dessa universidade, a informação que recebi foi surpreendente: os designers instrucionais não podiam mexer no texto encaminhado pelos professores, nem para corrigir erros evidentes de digitação ou de grafia!!! Os textos já tinham sido aprovados (sei lá por quem…) e os autores eram senhores absolutos de seu texto. O papel do DI era apenas “jogar” o texto nas telas do Powerpoint e encaminhar para a produção web.

Minha preocupação, hoje, é se esse tipo de absurdo ainda continua acontecendo…

Não me entenda mal: eu também trabalhei com ótimos professores!! Profissionais que não só eram excelentes do ponto de vista didático, como sabiam escrever e se expressar oralmente muito bem. Mas os professores que têm dificuldade de expressão, tanto oral quanto escrita, fazem um mal terrível a seus alunos!!

Por tudo isso quero chamar atenção, neste post, para duas coisas:

1)      primeiro, para a importância de todos nós fazermos uma reciclagem contínua em língua portuguesa. Felizmente, há, atualmente, uma infinidade de recursos à nossa disposição para que tenhamos sucesso nessa tarefa: livros, blogs e sites na internet, cursos on-line (alguns gratuitos) etc;

2)      segundo, para a utilidade de adotarmos procedimentos simples e práticos ao escrevermos os nossos materiais de aprendizagem on-line.

Como o primeiro item depende apenas de sua própria iniciativa, vou me concentrar, a partir de agora, no segundo. Vou sugerir seis dicas simples e práticas adaptadas de um post publicado no “Shift’s eLearning Blog”, com o título Power-writing for eLearning Professionals: 6 Secrets to Great Web Content, em abril de 2014. As dicas são as seguintes:

1)      Escreva parágrafos curtos

Se, alguma vez, você leu um livro ou apostila com parágrafos enormes, então já sabe por experiência própria que parágrafos curtos são sempre melhores. Eles facilitam o processo de aprendizagem, porque fica mais fácil para o aluno acompanhar cada ponto de uma explicação ou de uma história. Textos mais curtos em cada parágrafo ajudam a manter a concentração, uma vez que, havendo menos material para processar em cada bloco de texto, o aluno consegue analisar e julgar com mais propriedade aquilo que está lendo. Por outro lado, parágrafos longos e complexos dificultam a compreensão, levam o aluno a perder o foco e podem gerar desmotivação.

2)      Seja breve

A expressão “menos é mais” é especialmente verdadeira quando se escreve textos para serem lidos na tela do computador. Há uma regra bem estabelecida por estudiosos da internet que diz que um texto na tela deve conter cerca de metade das palavras que seriam usadas em uma página impressa.

Para tanto, o segredo é se livrar de todas as palavras que não sejam realmente necessárias. Para fazer isso, você precisa:

  • saber o que escrever: isto significa determinar com clareza, nas fases de planejamento e design, o que o aluno precisa saber e fazer, em função dos objetivos, e deixar de fora todo o resto;
  • saber como escrever: isto significa ser capaz de transmitir o conteúdo didático utilizando o mínimo necessário de palavras. Primeiro, porque os alunos dispõem de um tempo limitado para aprender esse conteúdo. Segundo, porque o próprio texto dispõe de um espaço limitado dentro do curso, ou seja, ele não costuma ser o único meio para transmissão do conteúdo (outros meios podem ser vídeos, áudios, animações, gráficos, imagens etc).

3)      Verifique se o conteúdo é compreensível

Bons cursos de e-Learning ou de EAD devem ter conteúdos simples, acessíveis e intuitivos. Para o DI isto significa usar um vocabulário acessível, além de termos, expressões e conceitos que permitam ao aluno que ainda não domina o jargão da área que está estudando ter plena compreensão do conteúdo.

Segue abaixo uma lista com sete questões básicas que ajudam a determinar se um dado conteúdo didático é compreensível para o aluno. É muito importante que você faça essas questões a si mesmo, quando for elaborar conteúdo, a fim de não causar problemas de excesso de carga cognitiva ou de incompreensão por parte de seus alunos. Eis a lista:

  • Eu estou usando uma linguagem simples e acessível?
  • Eu estou escrevendo para a população-alvo deste curso?
  • Eu estou apresentando as ideias de uma maneira lógica?
  • Eu estou fornecendo um contexto para o conteúdo do curso?
  • Eu selecionei o meio adequado para transmitir o conteúdo?
  • Eu estou fornecendo exemplos práticos, sempre que possível?
  • Eu estou usando meios alternativos para ajudar a clarificar os conceitos mais difíceis?

As questões acima foram adaptadas de um post publicado no “The Content Authority Blog”, com o título 8 Questions to Help Determine Whether Your Content is Understandable. Eu sugiro enfaticamente que você acesse esse post para ler os detalhes relativos a cada questão.

4)      Escreva para a tela, não para o papel

É mais difícil, para os nossos olhos, ler um texto na tela do que no papel. Lembre-se sempre dessa máxima quando estiver escrevendo materiais de e-Learning ou de EAD. O texto na tela precisa se tornar, de alguma forma, “escaneável” para os olhos, ou seja, é preciso usar títulos e subtítulos destacados em negrito, com tamanhos diferentes, usar dicas visuais como ícones, setas e molduras, e usar fontes de formato, tamanho e cor adequados. Também é preciso não distrair ou confundir os alunos com muitos links internos. Esses links são um recurso muito usado para evitar (ou camuflar) o excesso de texto na tela. Por exemplo, o aluno clica em um conceito e abre uma janela de texto com a definição e mais explicações sobre esse conceito. Trata-se de um recurso útil quando usado com parcimônia.

De todo modo, escrever para a web é um processo muito mais visual do que escrever para o papel. Se o conteúdo de uma tela não é atraente para os olhos do aluno, ele simplesmente não vai ler essa tela, vai passar os olhos e seguir para a próxima.

Pouco ainda se sabe sobre o processo de leitura na tela, mas algumas pesquisas mostram que importantes mudanças comportamentais estão ocorrendo no mundo digital, a ponto de impactar o modo pelo qual nós, DIs, escrevemos nossos materiais on-line. Há outro artigo publicado no “Shift’s eLearning Blog”, com o título Four Revealing Facts on How Learners Read on Screen que eu gostaria de introduzir agora. Como o título diz, são apresentados quatro fatos reveladores a respeito da maneira como os alunos leem texto na tela do computador. São eles:

  • As pessoas leem, em média, apenas cerca de 20% do texto de uma tela;
  • As pessoas mais novas (idade entre 16 e 29 anos) preferem ler textos na tela do que no papel;
  • A leitura não linear está aumentando enquanto a capacidade de atenção está diminuindo;
  • As pessoas não têm muita paciência quando leem textos na tela.

Recomendo a leitura atenta desse artigo também, tanto para saber os detalhes relativos a cada fato quanto para verificar as fontes dos estudos e pesquisas que dão suporte a esses achados.

Vale agora lembrar de uma afirmação que tem aparecido em vários sites de design instrucional, quase como um mantra: se quisermos que os alunos prestem atenção ao conteúdo didático que produzimos para a web, não são os alunos quem têm de mudar. Somos nós, designers instrucionais.

5)      Utilize verbos na voz ativa

Sempre que possível, dê preferência à construção de frases com os verbos na voz ativa. Assim, você dará ênfase ao sujeito que executa a ação. Na voz passiva, ao contrário, o destaque é a própria ação. Veja este exemplo:

  • Voz passiva: A pesquisa foi realizada em 1927, nos EUA, com patrocínio do National Research Council, tendo sido coordenada por Elton Mayo e colaboradores.
  • Voz ativa: Elton Mayo e colaboradores realizaram a pesquisa em 1927, nos EUA, com patrocínio do National Research Council.

6)      Revise seu texto; em seguida, revise seu texto

Todo mundo que tenha um conhecimento razoável da sua língua espera ler um texto sem erros. Alunos de ensino à distância mais ainda!! Um pequeno erro gramatical, ou mesmo de digitação, serão suficientes para diminuir a credibilidade do conteúdo a ser aprendido. Embora qualquer um possa cometer erros ao escrever, há três maneiras de reduzir ao máximo essa possibilidade:

  1. revise: esta ação é fundamental. Não basta revisar o texto apenas uma vez. Revise para encontrar erros de grafia e/ou de digitação. Depois revise para encontrar erros de concordância. Em seguida, revise para simplificar as ideias e eliminar palavras desnecessárias;
  2. leia o conteúdo em voz alta: ler em voz alta é uma excelente maneira de confirmar se o texto está claro, compreensível e se tem ritmo. Também ajuda a descobrir erros que possam ter passado desapercebidos em outras formas de revisão;
  3. utilize as ferramentas de revisão on-line: editores de texto e ferramentas de apresentação, como o Word e o PowerPoint, dispõem de recursos que garantem um nível básico (grafia, concordância etc) de correção dos textos. Devem ser usados!!

Conclusão

Textos bem escritos aumentam a confiança dos alunos e emprestam mais credibilidade ao conteúdo, fatores que podem levar a uma experiência de aprendizagem mais agradável e eficaz.

E você, acha que escreve bem?

2 Comentários

  1. Emilio Antonio Leonel Ferreira

    Wagner, bom dia!

    Excelente artigo, muito obrigado pelas dicas.

    Você tem algum artigo que aborda sobre os direitos autorais na EaD, ou recomendaria algum livro sobre o assunto?

    Um Abc
    Emílio

    Responder
    1. Wagner G. A. DestroWagner G. A. Destro (Post author)

      Olá, Emílio. Obrigado pelo seu feedback.
      Não tenho lembrança de algum livro que trate de direitos autorais em EAD, mas segue uma relação de artigos sobre o tema que valem uma leitura:
      – Estratégias e Políticas para a Gestão de Direitos Autorais em EAD: http://www.abed.org.br/congresso2010/cd/252010000302.pdf
      – Direito Autoral na EAD: https://senaed2009.wordpress.com/2009/05/26/direito-autoral-na-ead/
      – Direitos Autorais nos Cursos a Distância via Internet: http://www.abed.org.br/congresso2002/trabalhos/texto53.htm
      Espero que essas dicas lhe ajudem.
      Um abraço.

      Responder

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