Um desafio para o DI acadêmico

Este post está direcionado a você que trabalha como designer instrucional em ambiente acadêmico, ou seja, em uma escola, colégio ou instituição de ensino superior.

Imagine o seguinte cenário:

Você trabalha no setor de educação à distância de uma universidade particular. Certo dia você recebe mensagem de um chefe de departamento informando que os alunos de uma determinada disciplina à distância estão reclamando do excesso de exercícios que eles precisam responder e da pouca quantidade de aulas em vídeo gravadas pelo professor. Os alunos argumentam que não têm tempo para fazer tantos exercícios, que não gostam do material didático e que preferem assistir a vídeos em que o professor explica o conteúdo de cada aula. O professor finaliza a mensagem solicitando que você reduza a quantidade de exercícios e aumente o número de aulas em vídeo.

(Nota de contexto: Trata-se de um curso de graduação presencial com algumas disciplinas ministradas à distância. Não foi você quem fez o design da disciplina, mas atualmente você é o designer responsável por ela)

O que você faria em resposta a uma situação como essa?

Você poderia responder:

1)      Ok, professor. Se os alunos estão reclamando, então eu vou providenciar imediatamente os acertos solicitados.

2)      Professor, tudo bem quanto a reduzir a quantidade de exercícios. Eu já vou providenciar. Mas estamos com problema para aumentar o número de videoaulas. Como o senhor sabe, dispomos apenas de um estúdio de gravação e ele está com a agenda toda tomada.

3)      Bem, professor, eu vou fazer uma avaliação do design dessa disciplina para verificar se há algo que possa ser melhorado. Vou lhe dar retorno o mais rápido que puder.

Essas são algumas das respostas possíveis. Qual você escolhe?

Se você é um DI com alguma experiência, não deve ter tido dúvidas para escolher a terceira resposta. Afinal, como designer instrucional, o seu papel não é meramente atender a solicitações de alunos e professores, mas garantir a qualidade e eficácia dos materiais e experiências didáticos.

Mas, na prática, a teoria é sempre diferente daquilo que a gente lê nos livros ou ouve em conferências. Assim, a terceira opção, mesmo sendo a melhor estratégia de ação, pode ter problemas para ser adotada na prática.

A fim de colocar esse problema em perspectiva, vamos analisar cada uma das três opções de resposta.

A primeira resposta é típica do DI que não acredita em seu próprio trabalho e que acha que sua função primordial é atender, sem questionar, às solicitações de professores e alunos. Como vimos em outro post, são pessoas que têm vocação para garçom: gostam de atender rapidamente e sem contestar. Ao agir assim, acreditam que estão garantindo seu emprego, porque não estão se “indispondo” com ninguém. A má notícia é que DIs com essa visão não têm futuro, porque, cedo ou tarde, a universidade vai acabar percebendo que não precisa desse tipo de profissional, já que os professores e alunos estão fazendo o papel de DI, e sem cobrar nada por isso!!!

Se você acredita que as solicitações e reclamações dos alunos devam ser atendidas de imediato e sem questionamentos, então precisa responder à seguinte indagação: O aluno é o único – ou o principal – cliente dos serviços prestados pela universidade? Sim ou não? Por quê?

Dica nº 1: Se tiver alguma dúvida para responder a essa questão, sugiro a (re)leitura do post “A universidade na visão de um designer instrucional”.

A segunda opção é típica do DI que, além de também não acreditar em seu próprio trabalho, ainda acredita que os condicionantes administrativos devam governar as decisões técnicas. No exemplo dado, o DI responde que não será possível gravar mais videoaulas (uma decisão técnica) porque a agenda do estúdio de gravação está lotada (um condicionante administrativo). Ora, um DI com boa formação deveria primeiramente se perguntar: gravar mais aulas em vídeo é uma decisão tecnicamente acertada? Em caso positivo, deveria solicitar à universidade que providenciasse os arranjos administrativos necessários. Por exemplo, construir mais estúdios de gravação, alugar estúdios externos, efetuar gravações “caseiras” etc.

Essa inversão de valores é muito comum no ambiente acadêmico. Eis outro exemplo típico: “A Reitoria mandou construir mais oito estúdios de gravação aqui no campus. Agora eles precisam ser usados. A determinação é que todas as disciplinas à distância sejam construídas com base em videoaulas.” Essa frase é fictícia, mas já ouvi algumas histórias parecidas.

Infelizmente, o DI que aceita os determinantes administrativos sobrepondo-se às decisões técnicas também não tem muito futuro pela frente. Ou, talvez, até tenha, pelo menos enquanto as universidades basearem o seu sucesso em avaliações e notas do MEC. Mas isso poderá mudar quando os indicadores de sucesso estabelecidos pelo mercado de trabalho passarem a ter mais importância que a nota do MEC. Afinal, de que adianta o meu curso ter nota máxima no MEC se, depois de formado, eu não conseguir emprego ou trabalho em minha área de atuação?

A terceira resposta costuma ser dada pelo DI que tem consciência de sua responsabilidade social como designer instrucional. E sabe que, antes de aceitar qualquer pedido de mudança, é preciso fazer uma avaliação. Sabe também que os critérios técnicos devem se sobrepor às conveniências administrativas e burocráticas.

Mas as dificuldades práticas para a implantação de uma visão estratégica em design instrucional podem ser imensas. Vamos ver agora a dificuldade que considero mais importante, e que se constitui em grande desafio para o DI acadêmico.

Dando continuidade ao cenário descrito no início deste post, vamos supor que você resolva fazer um trabalho de avaliação composto pelos passos abaixo relacionados:

  1. Você lê o documento de design da disciplina e percebe que as decisões tomadas estão bem fundamentadas.

2. Você faz algumas aulas da disciplina e nota que o conteúdo está bem organizado. O material segue o formato de “aulas digitais” (HTML), com telas de conteúdo textual apoiado por quadros, imagens, animações, links para vídeos e sites externos. Há apenas dois vídeos gravados pelo professor: um de introdução e outro de fechamento da matéria. O material digital disponibilizado parece atender bem aos objetivos de aprendizagem propostos. Ué, por que será que os alunos estão solicitando mais vídeos gravados pelo professor?

3. Em cada aula, geralmente ao final, e antes da avaliação da aprendizagem, há uma bateria de exercícios destinados a reforçar a aquisição das competências esperadas. E logo você faz uma descoberta interessante: esses exercícios são opcionais!!! Não valem nota e as respostas dos alunos não ficam registradas no LMS. O aluno recebe feedback automático ao responder a cada questão. Esses exercícios têm a função formativa de ajudar o aluno a atingir os objetivos didáticos esperados. Mistério: por que será que os alunos estão solicitando a exclusão de atividades que não são obrigatórias?

4. Para tentar encontrar respostas a essas questões, você solicita ao monitor da turma que indique alguns alunos que são manifestamente contra as baterias de exercícios e/ou a favor de mais vídeos gravados pelo professor, e alunos que não manifestam essas posições.

5. Você, então, realiza uma sessão de videoconferência com um grupo formado por alguns desses alunos. E as descobertas que faz são ainda mais interessantes. Vejamos:

  • Em resposta à indagação a respeito dos motivos de estarem querendo mais videoaulas gravadas pelo professor, a maioria das respostas cai na seguinte categoria: “Porque nas aulas presenciais nós ficamos sentados, quietos, ouvindo o professor explicar a matéria. Nós estamos acostumados com esse método e queríamos que fosse seguido nas disciplinas à distância.” Em seguida, você indaga: “Por que esse método é melhor do que o adotado nas disciplinas à distância?” Um enorme silêncio e, depois, respostas vagas do tipo “ah, porque estamos acostumados” ou “porque gostamos desse jeito”, e outras similares.
  • Em resposta à indagação a respeito dos motivos de estarem solicitando a exclusão de atividades que não são obrigatórias, a maioria das respostas se enquadrou nas seguintes categorias:
    – Porque só fazem os exercícios os alunos que têm mais tempo disponível, e as disciplinas à distância deveriam ser pensadas para os alunos que não dispõem de muito tempo.
    – Porque os alunos que fazem os exercícios acabam levando vantagem sobre os que não querem fazer ou não têm tempo para fazer.
    – Porque nas disciplinas presenciais não há necessidade de se fazer tantos exercícios, e essas disciplinas deveriam ser o parâmetro para aquelas à distância.

6. Apesar de as respostas dos alunos serem muito esclarecedoras, você ainda não está satisfeito. Você solicita ao monitor da turma que prepare um relatório com as notas dos alunos na primeira avaliação bimestral, e que separe os alunos em dois subgrupos: os que fizeram todos ou a maioria dos exercícios opcionais e aqueles que não fizeram nenhum ou quase nenhum desses exercícios. Como esperado, as notas dos alunos que se dedicaram à solução dos exercícios propostos foram significantemente mais altas que as do outro grupo.

Dica nº 2: Caso você queira saber a respeito de dados de pesquisa que corroborem o resultado descrito acima, sugiro a (re)leitura do post “Fazer testes é melhor do que apenas estudar”.

7. Embora esse resultado também seja muito esclarecedor, você ainda quer mais. Como ato final, você solicita ao monitor da turma que prepare um relatório comparando as notas dos alunos dessa disciplina à distância com as notas dos alunos da última turma em que essa disciplina foi ministrada de forma presencial, na primeira avaliação bimestral. Mais uma vez, como esperado, as notas dos alunos à distância foram significantemente maiores que as notas dos alunos presenciais. Veja só que interessante: até mesmo os alunos que criticavam o método de EAD adotado, e fizeram poucos ou nenhum dos exercícios propostos, tiveram, na média, nota melhor que os alunos da última turma presencial.

Agora, sim, você se dá por satisfeito com os dados que têm em mãos e prepara um relatório para o chefe de departamento no qual demonstra que, do ponto de vista didático, não há necessidade de se atender às solicitações de um grupo de alunos dessa disciplina à distância. Você sugere que seja feita uma reunião de “clarificação de valores” com os alunos, na qual os procedimentos de EAD adotados seriam mais bem explicados e os resultados da aprendizagem exibidos e debatidos.

Dias depois, o seu superior, gerente do Setor de EAD, recebe uma ligação do vice-reitor acadêmico. Nela, o vice-reitor informa que leu o relatório que você preparou, que gostou muito, que estava muito bem fundamentado etc etc. Mas… (sempre tem um “mas”), você sabe, nossa instituição é privada, depende da mensalidade paga pelos alunos, a concorrência está muito grande, não podemos nos dar ao luxo de perder alunos por preciosismos técnicos etc etc. Conclusão: seu chefe solicita que você exclua todas as atividades opcionais e negocie com o gerente do Estúdio de Vídeo a liberação de alguns horários para a gravação urgente de videoaulas com o professor da matéria.

Esse é o seu desafio. O que você faz agora?

Como já sabemos, há, pelo menos, três opções:

(1) você aceita a cultura da instituição, ou seja, você se acomoda à situação e tenta conviver com ela;

(2) você muda de instituição, ou seja, pede demissão;

(3) você muda a instituição, ou seja, tenta mudar a cultura relativa à EAD, devagar e sempre.

Se você escolheu a opção 1 ou 2, não há nada mais a ser dito, a não ser lhe desejar boa sorte. Caso tenha optado pelo terceiro caminho, então sugiro que você comece se perguntando, e perguntando aos seus superiores:

a)       Por que as disciplinas presenciais não contam com o auxílio de designers instrucionais em seu planejamento e aplicação?

b)      O aluno é mesmo o único – ou o principal – cliente dos serviços prestados pela universidade?

c)       O modelo da educação presencial é o melhor paradigma para se desenvolver educação à distância?

d)      O principal critério de sucesso de uma universidade é a nota do MEC?

e)      A principal função da universidade particular é captar e manter alunos que pagam mensalidades? Ou é preparar profissionais para um mercado de trabalho cada vez mais complexo?

Dica final: Não se contente com a primeira resposta que receber!! 

4 Comentários

  1. Régis Tractenberg

    Excelente artigo! 😉

    Responder
    1. Wagner G. A. DestroWagner G. A. Destro (Post author)

      Obrigado, Régis. Seu feedback é sempre muito importante para mim!!

      Responder
  2. Emilio Antonio Leonel Ferreira

    Ser um bom profissional e fazer um bom trabalho é enfrentar desafios de todo o tipo.
    Obrigado pelas reflexões Wagner.

    Responder
    1. Wagner G. A. DestroWagner G. A. Destro (Post author)

      É verdade, Emilio. Obrigado a você pelo feedback.

      Responder

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